Europe – We’re all in the dance

A melhor metáfora para descrever o estado actual da Europa é uma discoteca. Pelo menos foi o que me ocorreu depois de ler artigos sobre a crise europeia. Senão vejamos:

 

A Europa começou por um ser um club bastante restrito: dado o contexto do pós-guerra, não podemos classificar os países fundadores como “um grupo de amigos que decidiu abrir um bar”, mas ainda assim. Era um espaço pequeno, que passava música de culto e não de massas, com uma mística, senão mesmo valores próprios que o definia (ao club). Entretanto, o espaço tornou-se cada vez mais popular e quando os fundadores se aperceberam disso, arranjaram um espaço maior. Tornou-se comercial (nesta metáfora, esta expressão assume uma dualidade assaz curiosa). Pelo meio, perdeu alguns dos valores que caracterizavam a mística inicial do espaço, mantendo alguns tão vagos de modo a agradar a todos que actualmente já ninguém sabe o que se entende por essa “mística” que, de tanto se falar nela, evaporou.

 

Esta é a história do nosso club. E metaforizando todos os elementos possíveis, é a história da Europa até à crise dos dias de hoje. Passemos então a analisar as personagens que hoje a compõem:

 

Começando pelo DJ, que é, neste caso, o Presidente da Comissão Europeia, Barroso. Ora, o DJ Barroso até acerta numa ou noutra faixa. “Ouve-se”. Não é genial, mas ao menos não põe nenhuma faixa que o público assobie. Mas também não é capaz de criar uma atmosfera como o DJ Delors conseguia – na verdade, até é um bocado medíocre, mas joga pelo seguro e toca aquilo que sabe que o público quer ouvir.

 

O bar é da responsabilidade do BCE. Apesar de ter um barman um bocado chato, sempre a avisar quando acha que os clientes (os Estados-membros, portanto) estão demasiado bêbados, vai servindo, se bem que a preços diferentes, o que lhe é pedido.

 

Van Rompuy e Ashton – pois esses são difíceis de metaforizar. Quando muito, e sobretudo no caso de Catherine Ashton, são aqueles RPs inúteis que nunca ninguém vê, e quando falam, ninguém ouve nem quer ouvir.

 

Passemos aos Estados-membros – esses dividem-se em dois grupos, bastante assimétricos no que toca à sua dimensão: o público e os seguranças. Os Estados-membros são praticamente todos parte do público, com excepção de dois: a Alemanha e a França.

 

Dentro do público, encontramos muitos tipos diferentes na pista de dança: logo na primeira fila, encostados às colunas desde o início, estão portugueses, italianos, gregos, muitos gregos, vários irlandeses mais bêbados e um ou outro espanhol que também tenha perdido a cabeça. Dizia-se que o plano deles era beber até desmaiar e depois serem levados para o hospital, sem terem de pagar a conta da discoteca. Quando o dono soube disto e lhes entregou a conta, foi uma desgraça. Os gregos tinham roubado garrafas de vodka do bar e escondido; os portugueses simplesmente tinham bebido mais do que podiam pagar. Os irlandeses tinham vomitado para cima da carteira, também foi uma chatice. Os espanhóis precisaram de ir buscar o dinheiro guardado para o táxi para pagar o resto da conta. Os italianos choraram.

 

Depois estão muitos países de Leste. Adoram o conceito do espaço, apesar de este ter sido deturpado há muito. No tempo em que não tinham idade para entrar, tinham ouvido falar imenso deste sítio e agora sentiam-se muito bem por finalmente já cá estarem.

 

A meio, estão os países da Europa Central e do Norte. Gostam do espaço, é bastante in, de vez em quando há um ou outro que bebe demasiado, mas nada de muito preocupante. Ultimamente, têm andado a beber menos e começam a não achar piada ao pessoal que está sempre lá à frente, sobretudo os gregos e os portugueses. Os gregos fazem muito barulho e os portugueses são irritantes porque têm a mania que conhecem o DJ e estão-lhe a sempre a pedir para este tocar esta e aquela músicas.

 

Lá metido num canto, normalmente num sofá, sem falar com ninguém (mas bastante agressivo se é interpelado) e a ouvir a sua própria música com uns headphones que isolam o som exterior, está o Reino Unido. Ainda não se percebeu porque é que simplesmente ele não vai para casa, mas ninguém lhe quer dizer isso. Diz-se que gosta de aparecer nas fotos para mostrar que esteve lá.

Passando aos seguranças, que desempenham papéis bastante diferentes: a segurança alemã vigia atentamente o que passa dentro do espaço, sempre à caça de alguém que esteja a fumar ou a snifar uma linha na casa de banho e sempre que detecta o mínimo de confusão ameaça logo expulsar alguém, chegando por vezes a abusar do seu poder. Devido à sua dimensão, contudo, ninguém tem coragem para lhe fazer frente, e quem conhece minimamente o seu passado sabe que é tão negro que o melhor é não se armarem em espertos. Já o cargo de eleição do segurança francês é à porta, a barrar gente à entrada. É pequenino, mas gosta muito do poder que tem. A uns, critica-lhes o vestuário. A outros, diz que não estão a cumprir as quotas de género. À maior parte, no entanto, atira-lhes o clássico “Consumo mínimo: 350 euros”. E a malta, que andou a juntar os 10/15 euros para entrar, deixa-se dessa. Pode ser que voltem daqui a umas horas, quando o club já estiver a fechar e já não esteja tão rigoroso.

 

Há um caso especial dentro do pessoal que foi barrado à entrada: já há muito tempo, havia um homem que tinha uma grande vontade de entrar e todos os dia-sim-dia-não metia-se logo no início da fila. Mas o segurança, implacável, fazia-lhe sempre exigências cada vez maiores. No início, o consumo mínimo para ele era 80. Quando o homem lá juntou os 80, subiu para 140. Ele resmungou, mas passado uns tempos voltou com os 140 na mão. Mas o segurança subiu a parada outra vez. O homem, farto de ter sido barrado tantas vezes, cansou-se e nunca mais lá apareceu. Entretanto, ouviu-se dizer que decidiu ele mesmo abrir um bar mesmo ao lado e que a vida lhe corre cada vez melhor.

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6 thoughts on “Europe – We’re all in the dance

  1. Esqueces-te de dizer que fora de um bar, abriu um outro estabelecimento em que o pessoal expulsou os bebedos, elaborou um pacto entre os restantes utentes e o bar manager. Dizem que são altos e louros.

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