Livro do Mês – Janeiro

Bem-vindos à nossa especial rubrica…bem, o título fala por si. Resta saber se isto vai durar todos os meses.

Para este mês, aqui o vosso Professor Marcelo escolheu dois pequenos grandes livros.

    

São dois livros pequenos, mas essa é das poucas pontes passíveis de se estabelecer entre eles.

O primeiro, Indignai-Vos!, é da autoria de Stéphane Hessel, com 94 anos, foi editado em Dezembro de 2010, sendo publicado em Portugal em Março de 2011 pela Objectiva, tendo obtido grande sucesso em França e em grande parte da Europa. Conheceu, entretanto, uma “sequela”, entitulada “Empenhai-Vos!”.

Hessel representa o legado de consciência da esquerda continental desde o pós-guerra e é uma arma contra o status quo actual que apresenta a perda do nível de vida no Ocidente como algo inevitável e que agora só nos pode esperar uma lenta e dolorosa “adaptação” a uma vida pior. Numa citação lapidar do que representa o espírito inconformista do livro, Hessel afirma: “Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais [as conquistas sociais da Resistência Francesa do Pós-Guerra]. Mas como é que possível que actualmente [o Estado] não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada?

Outro ponto de Indignação, para Hessel, constitui a situação do conflito Israelo-Palestiniano. O francês é particularmente crítico dos abusos israelitas sobre as populações da Faixa de Gaza, que o autor intitula de “prisão a céu aberto”.

Ora, o conflito Israelo-Palestiniano é precisamente o tema central do segundo livro que vos propomos. Da autoria de Amos Oz, um escritor israelita membro do movimento “Paz Agora” e defende uma solução de dois estados.  O livro, resultado de três conferências proferidas no início de 2002 e publicado originalmente no mesmo ano, só chegou a Portugal em 2007, pelas Edições ASA.

O testemunho de Amos Oz é profundamente realista, sóbrio. Um excerto do início da terceira conferência publicada no livro é disso mesmo ilustrativo: “‘Faz a paz, não o amor’, é uma máxima cunhada por mim (…) estou contra confundir amor e paz, o que é sempre uma confusão sentimental”. Não há feitiços no pacifismo de Oz. O autor está consciente, e refere isso várias vezes, que uma solução de dois estados é contrário àquilo que tanto Israel e a Palestina realmente quereriam – aquele território apenas cada um deles (“Não acredito numa lua-de-mel repentina entre Israel e a Palestina. Não sou um sentimental. (…) Em caso de esperar alguma coisa, seria antes um divórcio limpo e justo entre Israel e a Palestina. E os divórcios nunca são felizes, por muito justos que sejam. (…) Especialmente este (…) porque as duas partes em litígio ficarão para sempre no mesmo apartamento“).

Até porque, para Oz, ambos os povos têm uma História igualmente legítima que lhes permite reclamar em pé de igualdade um com o outro aquele território – e essa é a verdadeira tragédia.

No retrato do israelita, ninguém fica bem na fotografia: nem israelitas, nem palestinianos – e muito menos europeus ou americanos, que rejeitaram os dois povos no século XX e têm uma significativa parte da culpa no processo. E, no entanto, esse assumir colectivo de culpa é o primeiro passo para uma solução viável. Não a idealizada por cada uma das partes. Mas o compromisso, de que Oz se mostra tão adepto, é inevitável e condição sine qua non para a Paz, inalcançável desde sempre.

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3 thoughts on “Livro do Mês – Janeiro

  1. Caro Rodrigo,

    “Mas como é que possível que actualmente [o Estado] não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada?” – Stéphane Hessel.

    Nao li o livro, mas se esta frase demonstrar inequivocamente a dúvida do senhor Hessel, então acho que devia tirar uma lição de história. A taxa média anual de crescimento entre 45 e 70 (Os Trinta Gloriosos Anos) foi acima de 5%!!!! Quando existe um crescimento acerbo o Estado consegue indo cobrir e até ter superávits para sustentar o Estado social. Ora, na última década o crescimento europeu foi concerteza menor que 3%, o que torna insustentável todo o Estado-providência que foi delienad para ser financiado com crescimentos anuais de 5% ou mais.

    • Olá Quartilho,

      Stéphane Hessel tem 94 anos. E, pelo que me parece, lucidez não lhe falta. Portanto, História já deve ele estar careca (provavelmente de forma literal) de saber.

      Ora, a taxa de crescimento económico não é o único sustentáculo do Estado-providência. Os BRICS e outros países emergentes têm uma taxa de crescimento muito superior à taxa europeia actual, e até a muitos anos da Europa entre 1945-73. E no entanto não conseguem suportar (nem por sombras) um modelo de segurança social como o europeu.

      Aliás, o próprio conceito do Estado-Providência não é tão útil à sociedade em tempos de crescimento económico. Pelo contrário: é tão mais necessário, e tão mais pensado para tempos de dificuldades económicas. Para que serve um Estado pronto a apoiar desempregados num país que não os tenha?

  2. 1. Parece-me que trazer os BRIC para a conversa é desproporcionado. A Rússia brevemente sairá dos BRIC uma vez que não mostra qualquer dinamismo económico, sobrevivendo através das exportações de combustiveis fosseis e matérias primas. O Brasil na última década tem assistido a brutal aumento das classes médias e ao combate cada vez mais feroz à pobreza. A Índia e a China são países que exploram de tal maneira os trabalhadores e que têm demasiada população para sequer ter um sistema social como o Europeu.

    2. Os desempregados é um caso minímo durante uma época dourada. Falamos de sáude, educação e segurança social para os reformados/deficientes. O Estado-providência é importantíssimo durante o crescimento económico! Como seria ter uma economia sem recursos humanos qualificados? Ou em que as pais não podem por os filhos na creche? Ou em que estar adoentado é uma condição morosa e que nos tira imenso poder de compra?

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