Livro do Mês – Março

A direita e a esquerda são como uma religião, até certo ponto. Se tentarmos todos um exercício atroz de neutralidade, conseguiremos encontrar pontos válidos em ambos os lados do espectro político, que aliás já se diz extinto por tantos.

Como religião que são, no entanto, nenhuma análise da esquerda e da direita que queira ser mais que uma lista de eventos históricos pode aspirar a ser completamente imparcial. Nem o é este livro de Nick Cohen, What’s Left?, sobre o hemisfério político que explora penso-não-ser-necessário-explicar-qual.

Ainda continuando a metáfora das religiões, considere-se o livro de Cohen uma análise de um agnóstico filho de pais católicos sobre o catolicismo. Ora, debruçando-se esta obra sobre a esquerda, esta metáfora poderá ser algo polémica. Eu justifico-me:

As críticas mais difíceis de refutar às religiões vêm da parte daqueles que, não pertencendo a nenhuma igreja, as conhecem. Pegando de novo na religião (no caso, a católica): ]s críticas vindas de dentro da Igreja, basta remetê-las para uma passagem da Bíblia ou para uma obra do Papa – para os que já lá estão dentro, basta convencê-los de que precisam apenas de instruir-se mais para ver as suas questões resolvidas. Para quem está fora, bem, está fora. Não vêem a luz, ponto final. Tenha Deus piedade deles.

Já no que toca a quem está com um pé dentro e outro fora da Igreja, a questão é mais complicada: parte-se do princípio, correcto ou não, que essa pessoa conhecerá os meandros das questões que critica. Além disso, estando com um pé-dentro-outro-fora, não convém dar uma explicação tão agressiva que as afaste definitivamente para ‘o outro lado’.

Se a metáfora já deixou de fazer sentido para o leitor – se é que alguma vez o fez – troquemos ‘Nick Cohen’ por ‘filho de pais católicos’, ‘pais de esquerda’ por ‘pais católicos’ e ‘esquerda’ como substituindo ‘igreja’.

Sem se declarar de esquerda ou de direita, Cohen afasta-se dessa dicotomia com o propósito de evitar que futuras respostas à sua obra possam ter isso em consideração. Ao mesmo tempo, e devido à mesma razão, toca em, senão todos, muitos dos pontos fracos da esquerda. Citando a contracapa do livro, “the Left now defends fascists and champions a cripping cultural relativism that preaches ‘tolerance’ at the expense of justice, truth and freedom”. A capa do livro é um activista de fato, com um arafat enrolado à cabeça, uma granada na mão esquerda e um símbolo da paz estampado num cartaz na mão direita. A simbologia não podia ser melhor: este é, precisamente, o principal alvo do livro.

So much for Noam Chomsky. 

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