Nada será como dantes.

Actualmente, vemos a Europa a cair aos bocados. Depois da crise de 2008, a mudança parecia inevitável. Hoje, em 2012, a mudança continua a parecer inevitável. Ora, aquilo que é verdadeiramente intrigante neste processo é a direcção oposta destas duas mudanças: em 2008, o tom era criminalizar os banqueiros, apertar (ou restabelecer, em muitos casos) as regulações à banca, devolver o poder económico ao povo, you know the kind of thing I’m talking about. Em 2012, há uma dicotomia, uma dualidade de mudanças, numa dualidade de planos.

No plano económico, bipolarizam-se as opiniões. Apareceram o movimento Occupy, os Indignados espanhóis, o regresso dos protestos de rua em larga escala, como já não víamos há muito. As reclamações são muitas das mesmas das que apareceram na imediata “ressaca” da crise de 2008: estão, grosso modo, todas alinhadas num denominador comum que clama por uma maior igualdade social e económica. Por outro lado, as elites europeias económicas e políticas (com estas duas áreas a confundirem-se cada vez mais) alinham no mesmo discurso de contenção orçamental, combate ao défice, austeridade, cortes, etc. Apesar dos indicadores negativos da economia europeia estarem a moldar algumas dessas opiniões para a necessidade da austeridade ser “temperada” com medidas que estimulem a economia sob pena de cairmos num ciclo vicioso (em que austeridade gera perdas económicas, que aumentam o défice, o que gera mais austeridade), este continua ser o padrão: uma constante perseguição não do, mas infelizmente ao modelo social europeu, que como ouvimos recentemente por Mario Draghi, “precisa de ser extinto”.

É no segundo plano que me gostava de focar, no entanto: o plano dos costumes, das normas sociais. Dos valores que regem uma sociedade. Mais preocupante que ver o retrocesso dos direitos socioeconómicos das sociedades ocidentais, é ver que esse retrocesso é só uma carruagem de uma locomotiva maior – que, tratando-se de um retrocesso, andará para trás, portanto. Estamos a caminhar para uma sociedade atrasada. Os EUA servirão, aliás como sempre, como case study: não é de agora o fenómeno de vermos candidatos ultraconservadores a defender ideias radicais (também no plano económico, mas sobretudo) no plano dos costumes. A novidade não está aí, embora o próprio teor desse discurso seja cada vez mais radical. A (preocupante) novidade está no crescente apoio popular que esses candidatos têm: cada discurso mas, sobretudo, cada resultado eleitoral de Rick Santorum são um desafio à sanidade mental de, infelizmente, uma maioria-que-já-foi-maior de pessoas que acham aquele tipo de política impraticável. Também na Europa, a ascensão dos partidos de extrema-direita é a prova da crescente passividade do eleitorado ocidental com ideias que apenas há umas décadas atrás seriam absolutamente residuais. Maior prova ainda será o encostar à direita dos discursos de muitos líderes de partidos de direita moderada europeus: Sarkozy será o expoente maior disso, mas esta é um tendência disseminada por praticamente toda a Europa.

Hoje o Ocidente assiste a uma dualidade estranha, senão paradoxal: os ataques aos valores que são tidos como nossos desde o pós-guerra, tanto no plano socioeconómico como no dos costumes, são atacados publicamente. Temos “inimigos públicos” a esses valores – a Fox News e o movimento ultraconservador nos EUA; na Europa, a subida da extrema-direita – mas não existe nenhuma contra-corrente a esses ataques que defenda clara e convictamente as bases das democracias ocidentais do pós-guerra.

Porque essa defesa não existe, estamos efectivamente (muito) mais desiguais que antes, a perder direitos como areia entre os dedos. Estamos, de facto, a regredir. Discursos que anteriormente seriam considerados ofensivos são cada vez menos a excepção e estão a tornar-se, senão a regra, pelo menos cada vez mais usuais. Se esta tendência se mantiver, discursos contra a legalização do aborto por violação, por exemplo, em que a mulher deverá “tirar o melhor partido de uma situação difícil” serão o futuro garrote da nossa sociedade. Nada será como dantes. Mas, por favor, que não seja assim.

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