As (des)vantagens de ser cinzento ou a importância de ser Seguro

Depois das eleições e de vários anos de um eucalipto chamado Sócrates, o PS precisa de respirar. Na “ressaca” de tantos anos no poder, e sobretudo com um líder com uma personalidade tão vincada como a de Sócrates, é apenas expectável que o PS tire, dentro dos possíveis, umas “férias”. Com efeito, se há altura para rever estatutos e abrir o debate interno, essa altura é o tempo presente. Não obstante o PS precisar de mostrar ser um verdadeiro partido de alternativa, esta é altura ideal, dentro dos respectivos limites, para encetar uma renovação dentro do partido.

Para essa mesma renovação, é lógico que a escolha sobre o novo líder recaia sobre alguém razoavelmente desligado da clique de apoiantes de Sócrates que dominou o PS dos últimos anos. Ao trilhar o seu caminho dentro do aparelho partidário ao longo dos últimos anos, António José Seguro ganhou legitimamente a liderança do PS. A sua hora tinha chegado, sem grande resistência, depois de anos de trabalho árduo e ingrato a conquistar distritais e estruturas partidárias internas.

Desde o início, contudo, Seguro carregou sobre si a aura de ser uma personalidade fraca. Isso, no entanto, e depois do PS ter tido como líder alguém com uma personalidade mais carismática, foi visto com benevolência, senão mesmo como uma vantagem. Pensou-se dentro do PS que um líder (em tudo) diferente do anterior seria o ideal para esta renovação já tão propagada acima.

Ser cinzento teria, então, vantagens. Um líder cinzento ganharia a empatia da população que, como que surpreendida por uma maneira nova e aberta de fazer política, ainda que apagada, confiaria de novo no PS.

Afinal, em vez de empatia, o que Seguro ganhou foi a apatia. Pior: não só da população, como do próprio partido. Pior ainda: “ganhar a apatia” do partido é um suspiro de alívio para Seguro. Os ataques de que é alvo vêm mais de dentro do PS que de fora dele. Seguro está sob um intenso fogo cruzado por parte de várias facções do PS e não encontra maneira de se esquivar. O actual líder parlamentar, Carlos Zorrinho, é ainda mais apagado que Seguro e não serve para dar o corpo às balas, quanto mais assegurar a coesão mínima do grupo de parlamentar, que sangra como um soldado ferido no campo de batalha. As demissões e as polémicas sucedem-se, a ponto de soldados-rasos-promovidos-a-coronéis (falo, claro, de Pedro Nuno Santos ou Isabel Moreira) sublevarem-se, movidos por uma força que pensam erradamente ter.

Ser cinzento, afinal, não trouxe grandes vantagens. Actualmente, o PS navega sem rumo, numa espargata hesitante entre revisão interna e oposição (fraca, ao nível da já famosa “abstenção violenta”) ao governo. Seguro esvaziou o capital político que teria enquanto fonte de renovação em quezílias internas e chegou mais depressa do que aquilo que seguramente esperaria ao fim da linha. Algures no Terreiro do Paço, numa janela com vista directa para Belém, com uns binóculos pendurados sobre o peito, António Costa sorri.

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6 thoughts on “As (des)vantagens de ser cinzento ou a importância de ser Seguro

  1. Mafalda Rodrigues diz:

    Isto acaba por vir a propósito de Hollande. Ou pelo menos, pela cinzentês tanto dele como de Seguro.
    Há algum tempo, diziam-me precisamente que agora estava em voga apresentar os ditos candidatos “normais”. Esses benditos candidatos que encantam não por ser excepcionais, mas precisamente por não o serem.
    Apresentaram-me imediatamente o exemplo de Hollande (um homem que é descrito, maioritariamente, como “fraquinho”).
    Agora… a propósito da sua cinzentês.. Espero que esta qualidade, ou melhor, característica lhe traga mais vantagens que a Seguro.
    Em ambiente pós-eleições, já ouço muitos a dizerem que a frança é demasiada areia para a camioneta Hollande.
    Mas, utilizando as tuas palavras, deixem-no ao menos governar primeiro.

    • Antes de mais, obrigado pelo teu comentário 🙂 gosto mesmo da maneira como escreves!

      Sim. Também eu, sinceramente. Até porque, estrahamente como deves ter reparado pelo contraste entre este texto e o outro, tenho alguma simpatia por Hollande mas não por Seguro. Talvez por ser português e não francês, é verdade. Mas ainda assim Hollande parece ter mais algum fulgor. Nunca apanhei Hollande a defender “uma abstenção violenta” nem todo o leque de expressões patéticas que caracterizaram Seguro à frente do PS. E apesar de Hollande, depois de toda a expectativa à sua volta, estar, como já li, “predestinado a desiludir”, acho que tem todas as condições – mesmo tendo em conta Merkel – para trazer o assunto do crescimento económico para cima da mesa e fazê-lo contemplar na sua governação e na governação europeia. Mesmo sendo fraquinho, cinzento, ou às bolinhas e às risquinhas. Como já vi que concordámos nisso, deixem-no governar primeiro 🙂

      • Mafalda Rodrigues diz:

        Oh, obrigada! 🙂 Sabes que nisto de perceber política não sou grande coisa… Tento, o que já não é mau.
        Sim, há uma tendenciazinha entre portugas para gostar mais de não-portugas. Portanto, penso que a tua preferência por Hollande ao invés de por Seguro é inteiramente explicada pela tua nacionalidade. No worries. (Nem de propósito, dei os Maias há pouco tempo… Eça é brilhante no seu ódio por portugal).

        Não tenho a certeza se Hollande tem todas as condições para triunfar. Não deixo, no entanto, de partilhar contigo uma espécie de esperança inexplicável (toda a atitude de esperança acaba por ser de certa forma inexplicável).
        Parece que esta mudança trouxe novos ares à nossa Europa. Não consigo de deixar de espreitar por um futuro um bocadinho melhor. Como ambos constatamos, não há de facto razões para condenar imediatamente Hollande. Ele ainda não governou. Mas teremos nós razões para apoiá-lo, também imediatamente?
        Se não as temos, olha!.. Como disse, agarro-me a uma esperança de certa forma inexplicável.
        Não tenho justificações palpáveis para acreditar nele… Mas.. reservo uma quota-parte de simpatia para o homem.

        • Oh, ninguém percebe algumas coisas, e acho que é suposto. De resto, está tudo ao alcance de praticamente todos 🙂
          Sim, o facto de Hollande simplesmente não ser português já ajuda. Agora, do que pude seguir das eleições francesas, Hollande, ao contrário de Seguro, não optou por abstenções violentas. Pelo contrário, apresentou um programa de governo que é bastante ambicioso, em que algumas coisas (150 mil empregos na educação?…) dificilmente serão atingidas. (Pois, os Maias. Se tivesse algum livro de cabeceira, seriam os Maias, para ler uma passagem todas as noites, à laia de Bíblia.)

          Não terá todas as condições para triunfar, mas terá todas as condições para pelo menos trazer a sua própria agenda para a discussão. Como Hollande referiu no seu (enfadonho…) discurso de vitória, ele não é Presidente de um país qualquer, mas de França. Embora não goste deste tipo de afirmações, é inegável que a França tem mais peso que, digamos, …Portugal.

          De resto, apoio Hollande por princípio. E até lhe dou alguma margem de erro porque o contexto actual o obriga. Tal como tu, “reservo uma quota-parte de simpatia para o homem.”

  2. Mafalda Rodrigues diz:

    Concordo plenamente contigo!
    Ainda assim, estou a manter-me atenta às notícias, não vá o diabo tecê-las.. A gloriosa parelha Merkozi pode ter acabado, mas nunca se sabe se essa senhora iniciará outra com Hollande…
    Bem, não me parece. É certo que terá de haver a mínima de cortesia entre as duas entidades (não nos esqueçamos que falamos de dois países e tanto!) mas não os quero demasiado próximos.

    Enfim, há até quem defenda que pior que os dois se aliarem é os dois andarem às turras (não consigo conter um sorriso; uma imagem mental dos dois andarem, literalmente, à cabeçada assalta-me o pensamento. admitemos, um pouco de sadismo nunca magoou ninguém) 🙂

    (e sim, os maias é um livro digno de ser santificado! nada menos que uma uma bíblia)

    Não me preocupa se Hollande irá triunfar ou não. Como disseste, se não triunfar, vai ter pelo menos uma oportunidade para pôr as suas cartas na mesa, de ter (e desculpa-me a expressão) “uma voz”.
    Isso já é uma vitória.

  3. Mafalda Rodrigues diz:

    P.S. – (Em relação à nossa amiga grécia) Não me consegue entrar na cabeça que um partido neo-nazi que contava anteriormente com percentagens infímas (diga-se de passagem, um partido de meia leca) surja agora com 6% dos votos. Não entra.

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