Reforma e Revolução?: França e Grécia

No rescaldo das eleições de ontem em França e na Grécia, há vários pontos que gostava de analisar nos dois países, antes de me debruçar sobre aquilo que eles poderão ter em comum.

França

Com cerca de 52% por cento dos votos, Hollande obteve uma vitória clara. Sarkozy foi o segundo Presidente, depois de Giscard d’Estaign em 1985, que não conseguiu a reeleição. Estes dois factores são indispensáveis e só à luz deles se podem analisar a magnitude dos resultados.

Tal como já havia ficado demonstrado pelos resultados da 1ª volta, uma onda anti-Sarkozy varreu o eleitorado francês. Anti-Sarkozy e anti-o-que-Sarkozy-signifique: não é de estranhar que Hollande se tenha apresentado como aquilo-que-Sarkozy-não-é. Com efeito, Sarkozy é carismático; Hollande não. Por exemplo. Mas Sarkozy jogou a carta do eixo franco-alemão como arma eleitoral, e esse pode ter sido um dos golpes que mais o prejudicou internamente. Os franceses não gostam de Merkel. Hollande tomou nota e foi “um candidato normal”. Merkel recusou reunir-se com Hollande antes das eleições. Hollande agradeceu. Sarkozy decidiu então investir à direita. Os resultados foram os que se viram.

Ultrapassada a noite eleitoral, é tempo de desviar os holofotes de Sarko para Hollande: aos ombros do candidato-agora-Presidente cai uma responsabilidade enorme. Mais que o destino de França, e dado o facto de tirando a Dinamarca não existir mais nenhum Estado cujo executivo seja liderado pelo centro-esquerda, é a visão social-democrata da Europa que Hollande será responsável por liderar. Pela força das circunstâncias, cabe a Hollande mostrar alternativas, mais que à retórica, à governação que a Europa tem tido nos últimos tempos. Uma resposta nova e eficaz de Hollande ditará o metrónomo das alternativas que os restantes partidos sociais-democratas e socialistas proporão nos seus países. A responsabilidade é grande; a tarefa, quase hercúlea. Hollande, que no seu discurso de vitória afirmou que “a austeridade não é uma fatalidade”, é convidado a prová-lo. Bonne chance.

Uma última nota sobre as reacções à vitória de Hollande por quem não o apoiava: ao lê-las, quis-me parecer que até domingo à noite a França e a Europa eram um oásis de boa governação e crescimento económico fulgurante, tal é o medo e as previsões negativas que Hollande suscitou. Mas a que me irritou mais foi o “ai os mercados”: parece que já nos esquecemos que há pouquíssimos anos atrás era só o que faltava os mercados condicionarem os resultados eleitorais. Hoje isso é adquirido. Pior que isso, quem não gostou dos resultados adivinhou o castigo dos mercados sobre a soberania popular. Ora, o que me irritou mais nem foi isto. O que me irritou – e irrita – é que, quando a França já estava a ter problemas com a sua dívida, quando a Europa governada por partidos de direita já está recheada deles, se os juros sobem a culpa é do gajo de esquerda que ainda nem é Presidente. Neste caso, e adaptando uma expressão do nosso ideário pós-25 de Abril, bardamerda para o socialista. Deixem Hollande governar primeiro. Ao menos isso.

Grécia

Com resultados eleitorais verdadeiramente explosivos, este regresso à democracia deve ter provocado cólicas em Bruxelas, Berlim e tantas outras capitais europeias (e não só). O partido mais votado, a Nova Democracia, teve cerca de 19%. A segunda força eleita é o Syriza um partido de esquerda radical, com quase 17% dos votos. O PASOK aparece apenas em terceiro, com 13%, sendo brutalmente castigado pela austeridade. Destaque ainda para, depois de dois outros partidos mais pequenos, um partido neo-nazi, se estrear em representação parlamentar, com 6% dos votos.

Isto significa duas conclusões óbvias, já referidas por vários jornais e comentadores. A primeira é que os dois partidos pró-austeridade juntos, a Nova Democracia e o PASOK, ficam bem atrás da maioria absoluta e portanto os partidos anti-austeridade que agora vêem as suas posições reforçadas podem bloquear as medidas actuais e as que se sigam.

Para além disso, o partido mais votado tem 3 dias para formar governo. Se não conseguir, será dada oportunidade ao segundo partido mais votado, que tem também 3 dias. Se também este falhar, será dada semelhante oportunidade ao terceiro. O que significa: se em 10 dias nenhum dos três partidos mais votados conseguir formar governo, serão marcadas novas eleições e o processo arrastar-se-á por mais meses, com a indecisão a tomar conta das decisões do governo de transição, entretanto transformado em comissão de gestão.

Os gregos estão a forçar o surgimento de alternativas. Syriza, you have the floor.

Pontos em comum

O primeiro e principal ponto em comum entre os dois resultados eleitorais é a clara fuga de ambos os eleitorados (francês e grego) da austeridade, em detrimento de quem diz defender caminhos novos. Em França, Hollande tirou a Sarkozy o seu segundo mandato com a promessa do fim (embora, claro, não absoluto) da austeridade e com o facto de ser a antítese do até agora Presidente francês. Ambos os eleitorados – e, já agora, toda a Europa – está a clamar por alternativas às políticas actuais. Em França, Hollande tem uma tarefa de grande magnitude pela frente; na Grécia, os resultados eleitorais “forçam”, pelo menos teoricamente, o surgimento dessas alternativas.

O segundo aspecto é o crescimento dos extremos. Em França, como já vimos, essa subida foi agora omitida pelo facto desta eleição se tratar de uma segunda volta; no entanto, os resultados de Le Pen, sobretudo, mas mesmo de Meléncheon, não caíram no esquecimento de ninguém e mostram o quão activas estão as franjas eleitorais e o potencial que têm num contexto de crise. Na Grécia, mais que a subida do Syriza ao segundo posto, é sobretudo arrepiante a ideia de ter uma força neo-nazi com representação parlamentar. Numa época de desespero, os extremos ganharam imenso fulgor na arena grega pela sua posição anti-austeridade e partilharão agora obrigatoriamente o palco. Aguardemos.

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4 thoughts on “Reforma e Revolução?: França e Grécia

  1. Oboss diz:

    Tal como o nosso caro PPC, François Hollande fez grandes promessas “anti-austeridade”.

    Pois não consigo perceber a convicção deles durante a campanha eleitoral, quando não sabem nada ainda do estado da economia. Não é que eu saiba mais que eles, mas queria relembrar que nenhum dos dois nunca tinha tido nenhum cargo político. Todos vimos o que aconteceu às belas promessas de PPC, e não seria grande surpresa que o mesmo venha a acontecer aos pobres dos franceses, quando Hollande estiver confrontado às realidades do seu caro país.

    Mais ainda, não podemos esquecer da responsabilidade enorme que caiu sobre François Hollande, pois quem deveria estar no seu lugar, inicialmente, era o nosso amigo Dominique Strauss-Kahn. (Fiquei com muita pena, porque este sim, poderia ter sido um bom presidente)

    “Presidente à força”, assim o chamam alguns, estou curioso de saber como vai ser a sua estreia no mundo político e económico, no comando de uma das maiores potências mundiais.

    • Sim, DSK poderia ter sido um bom presidente, mas já estava demasiado manchado há muito tempo. Tenho a certeza que daqui a uns tempos as teorias de conspiração sobre o que aconteceu com/a DSK se irão aguçar. Anyway, a verdade é que não devemos “mittromneyzar” Hollande. Hollande ganhou as primárias no PS e ganhou-as bem, num processo nem de longe tão moroso como as primárias republicanas, sem ganhar tantos anticorpos pelo meio e deixando a questão razoavelmente sarada na altura. A verdade é que as duas outras candidatas também não eram muito mais fiáveis – Aubry é SG do PS francês há quase “demasiado” tempo; Segolène perdeu as últimas eleições. Partilho a tua curiosidade e expectativa em relação ao Président Hollande.

  2. Adriana Correia diz:

    Gostei da sobriedade do artigo e da tua perspectiva em relação a este assunto.

    De facto, e tem-se vindo a comprovar ao longo da história, os extremos crescem quando crises maiores surgem. Em relação aos candidatos, acho que Sarkozy com todas aquelas questões da imigração, relevando as fragilidades das fronteiras francesas e toda aquela polémica em torno dos ciganos e dos muçulmanos e sendo a França um dos países por excelência para a imigração, a sua popularidade teve de diminuir, inevitavelmente.

    Le Pen, de extrema-direita, tocou em pontos que para o “povinho” não abona muito a seu favor, nomeadamente a sua forte crítica em relação ao euro.

    Já Hollande, prometendo (entre tantas coisas belas) reverter algumas das reformas de Sarkozy como as pensões, o aumento dos impostos sobre os ricos ou a crítica ao pacto orçamental e à austeridade da UE, não sei até que ponto é que é diferente dos candidatos políticos (portugueses, por exemplo).

    Todavia, tive e tenho mais receio do crescimento da extrema esquerda do que a extrema direita. O centro … o que é mesmo centro? Já discutimos isto uma vez e já sabes que partilho a mesma perspectiva que tu 😉 Mas isto tudo para dizer que só podemos aguardar e dar tempo ao tempo e perceber que há uma determinada conjuntura social e económica que corresponde a mais um ciclo da nossa história e que as coisas vão melhorar.

    Estaremos cá para ver se a política de Hollande vai ser assim tão diferente e tão bela como ele promete, ideologias à parte.

    • Obrigado 🙂 Sim, isso parece ser um dado adquirido, apesar de mesmo no final dos anos 90/início dos anos 2000 termos também observado um “mini-surto” de extrema-direita: penso que em 1999, Jórg Haider do partido de extrema-direita-austríaco-que-já-não-me-lembro-do-nome-e-tenho-mais-paciência-para-escrever-isto-tudo-a-hífens-do-que-ir-procurar, fez parte do governo. Penso em 2000 (é-a-mesma-cena-dos-hífens-uma-linha-em-cima,-também-não-tenho-a-certeza), Le Pen pai ficou em segundo lugar nas Presidenciais francesas, à frente do candidato socialista. Além disso, o fenómeno da extrema-direita já vem sendo cozinhado em lume brando desde meados da década passada – por exemplo, Geert Wilders fundou o seu PVV holandês em 2005. Quanto à questão entre extrema-esquerda e extrema-direita, não é que goste de me citar mas como acabei de escrever sobre isso, vou copiar para aqui o que pus no post do facebook:

      “obviamente que a extrema-esquerda me assusta. Não tanto em França, porque comparado a Le Pen, Melénchon teve uma votação irrisória. Para além disso, ele é o resultado de uma coligação de vários partidos que se uniram para as Presidencias, Le Pen representa só um único partido. Já na Grécia, claro, o Syriza tem um certo potencial explosivo. Mas o que me leva a dizer que a extrema-direita me poderá preocupar mais que a extrema-esquerda é o facto de a política europeia providenciar hoje um plano inclinado favorável a políticas de extrema-direita: com efeito, num quadro de crise económica profunda como o que vivemos, é muito mais fácil adoptar políticas anti-imigração e anti-imigrantes do que dizer “camaradas isto é tudo vosso” e nacionalizar tudo. Até porque a primeira está ao alcance de qualquer governo; a segunda, devido à globalização, não. A força da extrema-esquerda é a retórica, a da extrema-direita, também. Mas só se não lhes deixarem que ultrapasse a retórica. Para além disso, talvez por já ter ganho calo a ver o BE, o Syriza mete-me muito menos impressão com os seus 17% que um punhado de neo-nazis de cabeças rapadas a afirmar que “isto é só o início”. Aliás, neo-nazis fazem-me impressão em geral, ainda para mais se tiverem representação parlamentar.”

      Hollande, como já li algures, está “predestinado a desiludir”. Disso também já estou à espera. Mas acho que vai conseguir impor uma agenda nova a nível europeu que traga o crescimento económico para cima da mesa. Mesmo com Merkel, tem todas as condições para isso 🙂

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