In Maymorium

I decree a permanente state of happiness.

Mural de Paris em Maio de 1968

            Quando o ano passado escrevi sobre o Maio de 1968 e disse que não tinha havido sangue, imediatamente recebi dois comentários a referir-me que “houve sim – e muito”. Apesar de já ter respondido na altura, começo este texto e recomeço essa discussão por aí:

Houve sangue – claro que houve sangue. Mas Maio não corresponde ao paradigma de qualquer revolução que tenha ficado na História: um conflito sangrento (mortos entre lados opostos, muitos vezes ao abrigo de uma guerra civil) que a facção vencedora transforma em revolução.

Claro, Maio não foi assim. E aí começa a singularidade de Maio. Maio foi uma revolução, mas não foi uma revolução. Maio foi uma verdadeira guerra civil, mas não uma guerra civil. Maio foi o meio caminho entre todas as gavetas da Sociologia: foi mais que uma revolta mas não uma revolução-a-tempo-inteiro; não foi uma guerra civil no sentido “clássico” da expressão (com dois exércitos a defrontarem-se). Mas havia duas facções opostas e no fim, é difícil declarar o vencedor porque ambos tinham metas diferentes. Maio não se explica, percebe-se. Isto não é nenhuma arrogância esquerdista; é simplesmente assim.

O “é proibido proibir” nasceu aqui. Muito do que hoje é arrumado como jargão neo-esquerdista, sendo o “é proibido proibir” a mascote desse mesmo jargão, nasceu em Maio – e foi necessário, face a uma sociedade dramaticamente “aborrecida”, como escreveu Pierre Viansson-Ponté num tornado-famoso editorial do Le Monde em Março de 1968. Ao contrário de hoje, havia crescimento económico – e bastante sólido, por sinal. Mas uma sociedade aborrecida é uma sociedade perigosa, porque apática. O que hoje é visto como jargão correspondeu na verdade a uma mentalidade nova, que ditou um padrão novo da esquerda europeia que foge dos partidos tradicionais, cansada do extremismo de ambos os espectros políticos, e que rejeita colocar-se ao centro porque paradoxalmente é onde eles – os extremos – se situam a maior parte das vezes.

Assim, de Maio veio a proibição de proibir, já posta de lado, e uma experiência de liberdade como resposta ao cinzento e ao amorfo. Como foi referido no post de ontem sobre o livro de Kurlansky, a principal característica que os participantes no Maio de 68 referem é o facto de as pessoas terem começado a falar umas com as outras. Não são os protestos, as barricadas, nem sequer os feridos e a repressão policial. É – surpresa! – a conversa. Uma revolução que faz as pessoas conversar não pode ser má. Quem a censurar é mudo.

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