A Hidra: Um olhar para a situação actual e futura da União Europeia

Junho de 2012: Volvidos mais de 60 anos desde o início do projecto de integração europeia, o mundo mudou. O centro das atenções do mundo já não é uma Europa trucidada pelas duas maiores guerras que o mundo já viu, e o equilíbrio de poderes entre os Estados mundiais alterou-se também completamente. A USSR desmoronou-se devido ao peso de anos de burocracia ineficaz e projectos megalómanos, e por muitas ilusões de grandeza que ainda possam ter, os EUA já não conseguem policiar as relações internacionais, pelo menos da mesma maneira que o faziam no pós-segunda guerra mundial.

Em bom rigor, já não é o poderio militar de um Estado que lhe permite afirmar-se no plano internacional. O período de relativa pacificação que atravessamos actualmente (pelo menos relativamente a conflitos à escala mundial) faz com que, hoje em dia, os maiores jogos de poder no plano internacional se façam ao nível económico e não bélico. Alteraram-se as realidades. E a Europa, em que se alterou?

Tentando recuperar a relevância e imponência que a caracterizaram desde os primórdios dos tempos, tentou afastar conflitos e ódios centenários e unir esforços para não se deixar ultrapassar pelas novas potências. Mas o processo foi lento e cheio de passos em falso. Terá até agora dado frutos? Sem dúvida que a União Europeia tem hoje um papel relevante no plano mundial, mas está ainda limitada e fragmentada no plano interno por divisões culturais e ideológicas que persistem independentemente dos esforços de aproximação dos povos europeus. O mundo não olha ainda para a União Europeia como um só ser com dimensão e influência suficiente para ditar destinos e rumos internacionais, porque ainda somos visto como um conjunto de Estados muito diferentes que muito dificilmente chegam a um acordo, e que está limitado por uma estrutura excessivamente burocrática e por um modelo institucional sem um líder forte que seja capaz de unir os Estados europeus e direcionar esforços eficazmente, dando à Europa uma cara, um ”avatar”. Até esse ponto chegar, a Europa não é um Colosso, mas sim uma Hidra.

Que não haja confusões: uma Hidra é ainda assim um monstro temível, mas por vezes as suas inúmeras cabeças entram em conflito e atacam-se mutuamente. Falta-lhe a coordenação e a eficácia pragmática que só um líder superior lhe pode dar. Mas se as cabeças da Hidra são os seus Estados, será plausível que o seu líder seja uma das cabeças? Por muito pomposa e forte que possa ser, uma cabeça da Hidra é e será sempre uma cabeça, tão invejosa e hostil às outras como qualquer uma das restantes. Não é assim de todo aceitável que a União Europeia, enquanto união de Estados, seja liderada pelos interesses de um ou alguns Estados, como a Alemanha ou a França. Mas se é impossível que uma das cabeças controle as outras (tal só cria conflitos internos e faz ressurgir ódios, prejudicando a Hidra como um todo) então o que é que pode ser feito para domar o monstro?

A resposta é simples, embora indesejável para muitos: há que abdicar de parte da soberania e individualidade dos povos europeus. Há que ignorar diferenças e estar disposto a trabalhar juntos, a superar dificuldades juntos, e a confiar nos restantes Estados. Que melhor oportunidade para esta aproximação do que a actual crise, que nos proporciona um problema exterior? Fortemente afectada pelas dificuldades financeiras que a assolam, a Europa aparece na actualidade como que a tentar curar as suas feridas, submissa ao poder de agências de rating exteriores, aceitando sem resposta as críticas quase jocosas de outras potências, que lhe dizem que tem que se reorganizar e recuperar, embora por outro lado estejam a beneficiar da situação de fraqueza da besta. Mas estão seriamente enganados. A Europa não tem de se submeter ao que o resto do mundo lhe impõe. Durante séculos, a Europa FOI o mundo, e deu ao mundo todo o conhecimento de que ele hoje dispõe. Essa realidade não é uma coisa do passado: a Europa continua a ser um monstro, apenas um que está adormecido na actualidade, e que parece ter sido esquecido.

Mas a besta pode e irá acordar. Olhemos para a situação da Grécia e de outros países em dificuldades. É desprezível a atitude negativa de muitos, que pensam levianamente na possibilidade de abandonarmos os nossos irmãos, e de os deixarmos à mercê da sua sorte, só porque salvá-los é algo difícil e que pode ser pouco vantajoso para os restantes Estados. Mas a Grécia é uma cabeça da Hidra, tal como nós e como qualquer outro Estado. Se alguém tenta cortar uma cabeça da besta, ela regenera, e terá que lidar com não só essa cabeça renascida e refortalecida, como com o resto do monstro, e todas as outras cabeças. Nenhum Estado será abandonado, e nenhuma dificuldade pode servir para desistirmos do objectivo final: uma Europa unida e forte.

Assim, e como nota final, proponho o seguinte:

1- O mundo acha que devíamos abandonar os mais enfraquecidos entre nós? – Ajudemo-los, mostremos ao mundo que a Europa pode e faz o que quer.

2- As agências de rating são usadas por outras potências como forma de nos enfraquecer? – Criemos então as nossas próprias agências: se há coisa que a Europa não é, nem nunca foi, é pobre, seja economicamente, ou em grandes ideias e grandes homens.

3- Os povos europeus ainda estão demasiado afastados e fragmentados? Que se unam, através de todas as iniciativas que forem necessárias. Que olhem para o resto da Europa e vejam não rivais ou adversários, mas irmãos e amigos. Que olhem para fora da Europa e vejam um mundo disposto a usá-los, e que a única forma de se protegerem é unirem.

4- A União Europeia é uma máquina demasiado grande, lenta, e sem cara? Que a simplifiquemos, que a tornemos eficaz, e que lhe seja dada, por vontade dos europeus, um líder capaz de a manter em movimento: alguém com o carácter e inteligência para domar a besta, e depois soltá-la.

5- Para aqueles que acham que a época de ouro da Europa foi há séculos, e que o processo actual de união é um fracasso e deve ser abandonado? Que abram os olhos, arregacem as mangas e percam a atitude derrotista: a Europa sempre foi a líder mundial, e está na altura de mostrar que pode continuar a sê-lo enquanto os europeus assim o quiserem.

Este foi um texto escrito por Virgílio Magalhães, um aluno de Direito da Faculdade de Direito de Lisboa e um “velho” amigo meu. Espero que gostem tanto desta peça como eu gostei de a ler 🙂

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2 thoughts on “A Hidra: Um olhar para a situação actual e futura da União Europeia

  1. Lídia Afonso diz:

    Análise muito bem elaborada. consistente,pertinente e sobretudo muito lúcida! De que nos serve a soberania da nossa quinta quando pediemos empretado para pagar salários? sejamos coerentes, Só a união veradeira ( não confundir com fusão) pode realmente fazer a força!

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