Figurantes e figurões a fazer figurinhas

A silly season é um fenómeno global. Chega o Verão e o bom senso dos discursos públicos e políticos estabelece uma relação de proporcionalidade inversa com o aumento das temperaturas. Quem fala nesta época tem uma tendência inexplicável para dar origem a notícias por vezes transformadas em escândalos, que surgem e se esquecem à mesma velocidade que um incêndio espontâneo numa savana. A silly season é, no fim de contas, o summer affair da comunicação social.

Cá em Portugal, no entanto, a silly season é uma condição da nossa democracia. Um primeiro-ministro-tornado-Presidente-da-República a esventrar furiosamente um pedaço de bolo em directo para a televisão nacional seria um exemplo máximo, até extremado, de um comportamento típico de silly season. Cá, acontece no Natal. Atitudes destas são a regra e não a excepção. E esse estado-de-pateguice constante inclui todos os elementos da nossa querida polis: os espectadores-eleitores – os figurantes – e os protagonistas – os figurões – num palco decorado em tons de ridículo. Fazem ambos figurinhas. Os figurantes por serem exactamente isso – figurantes. Não existe opinião pública em Portugal ou, quando há, fica cautelosamente preservada no ambiente acolhedor de um táxi. As excepções a isto emergem quando a ‘sociedade civil’, essa grandiosa mão invisível (paradoxo? Nem por isso), decide parir Compromissos Portugais e outros que tais, que concluem brilhantemente que o caminho para este sítio beira-mar plantado é por os custos de trabalho ao nível do Uganda. Ou abaixo, que pelos vistos o Uganda anda melhor que a Europa.

Figurantes assim têm os figurões que merecem. Ora, Portugal adora figurões. Um líder político está automaticamente condenado ao fracasso se não parecer que traz consigo a chave para todos os problemas, mantendo uma expressão de quem encerra em si todos os temores do mundo, carregando aos ombros o país. Não há lugar à humildade na política portuguesa. As ‘elites políticas’ tomam nota: dentro das jotas transbordam amostras de figurões de peito inchado que se movem num turbilhão constante de jantares, conferências e jantares-conferências onde se discute o sexo dos anjos. Após anos a limar o seu discurso até qualquer vestígio de substância dar lugar a uma retórica inflamada absolutamente estéril, estes quadros estão prontos para dar o salto e tomar conta dos destinos do país. Num exercício que serve de atestado intelectual, escrevem um livro que será pronta – e felizmente – esquecido. Depois, correm o Norte a beijos e o Sul a visitas a cafés, com comícios nos dois lados (e nas ilhas, palcos secundários e com buracos de figurões boémios). Chegam ao governo, metem um infeliz qualquer a penar como ministro das Finanças e instalam-se em cargos governamentais de topo. Pelo meio, ainda quase que nem eram “senhores doutores”, e neste país a política é só deles. O problema fica resolvido com uma licenciatura – com equivalências, qual é o espanto? Tantas Universidades de Verão tinham de servir de alguma coisa – numa Universidade de terceira linha. Senhores nunca serão, mas agora as cartas já lhes chegam a casa com um ‘Dr.’ antes do nome.

Chegou o tempo deles. Que tristes figurinhas.

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2 thoughts on “Figurantes e figurões a fazer figurinhas

  1. Maria João Ruivo diz:

    Era tão bom que não tivesses razão, Rodrigo, mas, e é caso para dizer, infelizmente tens. Aprecio, sinceramente, a análise madura que aqui fazes.

  2. Maria Margarida Tavares de Melo de Simas Borges diz:

    Parabéns, Rodrigo. Texto fabuloso digno de publicação num jornal de projeção. Infelizmente tens razão… É por isso que Portugal está como está. Precisamos de cabeças como a tua.

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