Bonjour, Sócrates

Confesso que queria ter escrito este post há mais tempo, ainda quando foi anunciado o espaço televisivo de “comentário político” que Sócrates terá. No entanto, senti-me atropelado por uma chuva de reacções que, embora previsíveis pelo conteúdo, não deixaram de me surpreender pela forma – petições?

A chuva de reacções foi, de facto avassaladora – prova do poder que Sócrates tem na política portuguesa e que nunca deixou de ter. Toda a gente disparou para todas as direcções: quem não gostava e não gosta de Sócrates, pronunciou-se contra a decisão da RTP. Quem é apologista do ex-primeiro-ministro, pronunciou-se a for. A maioria, contudo, decidiu ultrapassar a decisão e dedicar-se à análise da decisão. O anúncio deste espaço de “comentário” foi lido de todas as maneiras possíveis: tanto seria uma jogada de Relvas para dominar o PS, como uma jogada da RTP como “vingança” pelo projecto de privatização da estação; tanto beneficiaria o PS, que teria no ex-PM socialista um aliado no ataque ao Governo; como beneficiaria o Executivo de Passos Coelho por anular a liderança já-mais-que-anémica de Seguro. Alguns comentadores (os “comentadores políticos”, a nova estirpe da nossa praça tão atacada em relação a Sócrates, tão esquecida em relação aos demais) até apontaram este regresso como uma preparação de uma candidatura presidencial. O regresso de Sócrates tanto significava uma coisa, quanto outra.

E o frenesi manteve-se até à hora da entrevista. Qual episódio final de telenovela, o país parou para ver o seu anti-herói. E aí, Sócrates apareceu, igual a si mesmo. Um pouco enferrujado e com algumas expressões – ou deslizes – novos. “Epá, ó Vítor”, embora seja o herdeiro natural do “Porreiro, pá”, foi uma novidade numa entrevista. Mas de resto, a entrevista podia ter sido retirada da RTP Memória: vimos um Sócrates combativo, impertinente com os jornalistas, sentindo-se sempre acossado pelas perguntas e repetidamente a impor o seu ritmo, desmontando questões, virando do contrário argumentos. Pelo meio, no entanto, referiu vários pontos verdadeiros: a ideia de ir “para além da troika” é deste governo, não foi herdada pelo anterior. E refugiou-se, como não podia deixar de ser, no chumbo o PEC IV, a válvula de escape perfeita.

Depois da entrevista, as intenções de Sócrates são razoavelmente claras e só vêm transformar o futurismo de tantos analistas que escreveram em cima do joelho em comédia: Sócrates não vem fazer política activa. Este comentador político que nos chega de França vem apenas defender o seu legado. Mais nada. Isto significa que quaisquer estragos que faça, e seguramente fará muitos, não poderão ser classificados senão como danos colaterais. Sócrates deixou apenas passar o mínimo “período de nojo” possível, porque sabe que tem muito da sua imagem para limpar e quanto mais uma nódoa não é limpa, mais difícil é a sua remoção. De resto, não se importa com mais nada. Se para isso tiver de atropelar Seguro e a sua liderança fraca para depurar a sua imagem, pois paciência. Se conseguir acertar certeiramente neste Governo, e vai precisar de o fazer várias vezes (sobretudo agora que o novo discurso-tipo do Governo, já que tudo falhou, é voltar a transferir culpas do estado actual para a governação anterior), tanto melhor. Mas nenhum desses dois alvos é o principal. Sócrates não quer ser lembrado como aquele que afundou Portugal. Esse é o único objectivo que o traz de volta. Quaisquer episódios que surjam a jusante dos seus comentários são externalidades, independentemente de serem positivas ou negativas. Isto engloba tudo, desde a queda de Seguro, de Passos Coelho ou de uma pole position numa candidatura a Belém (afirmar que este é o objectivo desta rentrée é o sonho molhado de outros “comentadores políticos” como Marques Mendes ou Marcelo – esses sim com pretensões mais imediatas).

Uma última nota sobre este espaço cada vez mais consagrado a “comentadores políticos”, saltando por cima sobre o quão errado políticos assumirem a função de comentar aquilo que os seus pares fazem, deturpando a objectivo primordial do próprio comentário político: mal ou bem, são estas figuras os “senadores” da nossa praça. Com Soares a contar os seus últimos dias e sem ninguém do seu estatuto – nem lá perto – os “patriarcas” da política portuguesa são estes “comentadores políticos”: Marques Mendes, Marcelo, Morais Sarmento, Sócrates e, quando voltar, Durão Barroso. É profundamente revoltante um grupo tão medíocre ser a espuma da classe política. E é ainda mais revoltante, ou simplesmente triste, constatar que os líderes políticos no activo – refiro-me a Seguro, Passos Coelho ou o monstro-de-duas-cabeças do BE, já que PCP e CDS têm líderes cristalizados, por razões diferentes – são ainda mais pobres. Há um constante abaixamento do olhar em cada geração de políticos portugueses. Do ponto de vista das capacidades políticas, Passos é pior que Sócrates, que é quase pior que Durão Barroso, que é pior que Guterres, que é pior que Cavaco, …por aí adiante. Mas isso fica para outra altura.

O que agora interessa é: o monstro está de volta. Não percam os próximos episódios, porque nós…também não.

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2 thoughts on “Bonjour, Sócrates

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