O país perguntou

Confrontado com perguntas de 20 portugueses, o primeiro-ministro foi unânime em apelar à consciência das dificuldades vivida por milhares. Perguntas aconselhadas e preparadas previamente, pessoas maquilhadas e 90 minutos de antena. Esta foi a realidade que marcou a noite da RTP no passado dia 9 de Outubro.

Com uma entrada alusiva às cores da bandeira portuguesa em que o vermelho predominava sobre o verde, a simbologia da bandeira da República Portuguesa não passou despercebida e fez-se notar. Enquanto a ‘esperança da nação’ era menor representada em relação ao seu ‘sangue’, toda uma omnipresença foi vincada. Até a carpete era vermelha.

“Muitos são os portugueses que afirmam nos últimos dias que gostavam de ter a oportunidade de fazer uma pergunta a quem nos governa, desde logo ao primeiro-ministro. É precisamente o que vai acontecer agora. Hoje. Neste estúdio” iniciou Carlos Daniel. O país pergunta e Pedro Passos Coelho responde.

Helena Sá Medeiros, de 60 anos, aposentada da Função Pública foi a primeira feliz contemplada. Começa por nomear o primeiro-ministro como um “poço de contradições” ao mesmo tempo que refere que o mesmo em campanha eleitoral “defendia que não ia aumentar os impostos, cortar as reformas dos reformados e pensionistas, que não iria baixar rigorosamente nada que baixasse o nível de vida adquirido ao longo dos anos com trabalho que todos nós tivemos, nomeadamente os aposentados … disse também que a constituição tinha de ser alterada”. Posto isto, a sua pergunta dirige-se para a posição do primeiro-ministro face à realidade vivida pelos portugueses e se “estas contradições são algo parecidas com a irreversibilidade do senhor Paulo Portas?”.

Pedro Passos Coelho começa sereno, a olhar atentamente nos olhos da senhora, com o seu fato impecável com uma gravata azul clara e um pin da bandeira de Portugal do lado direito. “São muitas perguntas não é? Mas eu vou tentar responder”.

Começa por defender o valor monetário para a ajuda monetária do povo lusitano, para os três anos, acordado no Memorando de Entendimento da Troika, como obrigatoriamente suficiente para viver durante o mencionado período de tempo como também deverá preparar o país para regressar à normalidade em termos de financiamento. “Temos de viver com um envelope fechado. Não temos mais dinheiro que aquele para gastar. As nossas despesas têm de se conter dentro desse envelope financeiro portanto as medidas que temos vindo a fazer para todo a redução da despesa pública visam justamente que o país possa viver com aquilo que lhe foi emprestado. Ora, nós vivemos em Portugal uma situação em que a despesa pública tem uma repartição conhecida. Nós não podíamos manter o país com um défice orçamental na casa dos 10% que era rigorosamente o défice que tínhamos quando iniciámos funções e tínhamos de reduzir esse défice. O corte das despesas teve de ser feito para que nós pudéssemos, de certa maneira, voltar a ganhar acesso a mercado e ter confiança dos investidores. Para isso tivemos de baixar salários e introduzir uma contribuição extraordinária de solidariedade” prolonga-se Pedro Passos Coelho.

O moderador interrompe pouco tempo de discurso depois e, politicamente correto, pede para que o primeiro-ministro falasse das pensões: “Porque é que é preciso continuar a cavar no sector dos aposentados e dos reformados e ser preciso ir buscar mais dinheiro a estas pessoas?”. Empenhado em recuperar o país, Pedro Passos Coelho insistiu na importância do cumprimento das metas do défice para Portugal, com a aposta na redução dos salários e das pensões como algumas das propostas viáveis para o efeito. Para além disso, faz um humor negro sobre esta questão “Não estamos a ir buscar mais. Estamos a ir buscar menos”.

Teresa Carneiro, 41 anos, empresária da restauração faz a próxima pergunta. Contesta a dificuldade em cumprir obrigações fiscais com o aumento do IVA de 13% para 23% no sector onde trabalha. Pedro Passos Coelho decide falar de uma dimensão psicológica da quebra de consumo ao nível da restauração mas quando questionado pelo moderador se eliminava totalmente qualquer hipótese de mexer no IVA ao longo do próximo ano, este responde. “Não estou a eliminar essa hipótese. Estou simplesmente a não alimentar uma expectativa à volta disso. Nós dentro do Governo iremos discutir essa matéria no conselho de ministros (…) Não podemos perder receita em toda a linha com muita transparência lhe devo dizer” – termina.

Os seguintes “cidadãos anónimos” a questionar Pedro Passos Coelho focaram assuntos como o ensino e a social-democracia da mesma (neste último ponto, uma professora desempregada provoca o PM e propõe-lhe um exercício em que subtraia 1100€ ao valor das propinas dos dois filhos bem como do alojamento, alimentação e outras despesas), a extinção dos governos civis, a paragem da construção do túnel do Marão e o agravamento nas desigualdades territoriais, o desemprego jovem, a reforma da função pública e do Estado, obrigações do serviço público de transporte aéreo entre ilhas e o continente, o Sistema Nacional de Saúde, os julgados de paz, o preço dos combustíveis, as dificuldades da agricultura, as medidas do OE 2014 para combater a queda da natalidade e o envelhecimento da população, a carga fiscal nas regiões autónomas e os custos de insularidade, a participação dos jovens na actividade política, as dificuldades sociais e as redes de apoio nesta crise económica. Por último, António Leal, Técnico Oficial de Contas, decidi usar o último tempo de antena disponível para perguntar ao PM se se sentia a pessoa mais habilitada para conduzir o destino dos portugueses. A resposta não tardou em chegar.

“António, eu fui escolhi como PM talvez na época mais difícil que o país passou desde 1974 seguramente e tenho procurado na minha acção estar à altura destas dificuldades de modo a garantir tanto quanto depende de mim aos portugueses que nós ultrapassaremos este período extraordinário que estamos a viver e que conseguiremos retomar a nossa economia”. “Aqueles que nos emprestaram dinheiro fizeram uma avaliação de forma positiva, o que significa que acreditam que vamos pagar aquilo que devemos e que vamos conseguir recuperar desta crise”. “Quando me candidatei a primeiro-ministro tinha várias decisões importantes”. “Antes de ser PM, me comprometi e por escrito a executar este Memorando de Entendimento (‘isso é discutível’, ouve-se de Carlos enquanto Passos Coelho fala que os portugueses conhecem e é isso que eu estou a fazer e com resultados favoráveis que se esperam e que nos dão garantia de recuperar a nossa autonomia”.

O moderador perguntou ainda se o PM nunca tinha pensado em desistir, o qual responde que não. “Aquilo que me anima todos os dias é a possibilidade de poupar o país a uma consequência desastrosa de qualquer crise política ou do incumprimento das obrigações a que nos comprometemos” continua.

Durante 90 minutos, com intervenções informativas vagas e gerais, nada responde em concreto. Nada que já não se saiba. Nada que já não tenha sido transmitido pelos meios de comunicação social. Falou de grandes sacríficos para a vida dos portugueses. Falou de uma nova vaga de austeridade. Falou de uma previsão de 0.8% de crescimento na economia para 2014.

Outrora falou também da diminuição do desemprego jovem. O factor que deixou escapar foi o aumento da emigração portuguesa, especialmente dos milhares de jovens que saem do país (os números indicam que 120 mil portugueses saíram de Portugal só em 2012) ou dos trabalhos sazonais que ocorrem no Verão. Estas realidades são fortes o suficiente para contribuir para uma diminuição significativa do desemprego jovem.

Neste mesmo dia, num pedido de esclarecimento sobre o corte nas pensões de sobrevivência anunciado pelo Governo, Heloísa Apolónia acusa o governo português de não demonstrar “nenhuma ética na política” e de andar “permanentemente a fazer das pessoas tolas e os portugueses já estão fartos”. E as suas declarações foram unânimes na opinião pública. Entre frustrações e falta de respostas, os portugueses sentiram que o primeiro-ministro não usou o seu tempo de antena para esclarecer o país sobre rigorosamente nada. As perguntas consideradas mais interessantes foram as colocadas pelo próprio moderador. Aliás, o próprio modelo de programa faz com que não haja respostas.

Foi também transparente a posição que Pedro Passos Coelho toma quando faz transparecer que “se ele falha, falha o país”.

Com uma audiência média de 10,8%, esta não foi suficiente para conquistar a liderança da RTP durante os 90 minutos de emissão do programa e atingir um interesse mediático. A liderança manteve-se na SIC e na TVI com 12% (de audiência) cada.

Visto por mais de um milhão de portugueses, o país pergunta e não gostou.

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