O Manifesto

Os Manifestos sempre foram uma coisa de Esquerda. A Esquerda sempre gostou de manifestos: desde o Manifesto Comunista e de vários manifestos ocasionais ao longo da história contemporânea até aos inumeráveis (e, por vezes, inenarráveis) manifestos que atolharam a discussão pública com, muitas vezes, palavras ocas e inócuas, apontando em direcção nenhuma, os Manifestos foram sempre uma língua oficial mas raramente trouxe algo de novo recentemente.

Quando li que várias personalidades tinham assinado um manifesto a defender a renegociação da dívida, precipitei-me a concluir que isso significava um conjunto de celebridades de Esquerda que tinham juntado umas canetas – outra vez. Depois li a notícia e apercebi-me que o bom senso tinha deixado de ser extremista: de 2011 até esta parte, só o BE e o PCP tinham defendido a renegociação da dívida. Agora os extremistas eram outros: Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Sevinate Pinto e vários membros do PS: João Cravinho, por exemplo. Para além destes, assinam também o manifesto Carvalho da Silva, Francisco Louçã e outros nomes que não são exactamente surpreendentes.

Até há muito pouco tempo, este cenário era impronunciável à direita do BE e do PCP. E de repente, por um toque de varinha e de esferográfica, tornou-se praticamente consensual fora da esfera do governo.

Ontem, a novidade do manifesto atordoou a resposta, que hoje já não tardou: o punho de José Gomes Ferreira fez brotar uma ‘Carta a uma Geração Errada‘, entretanto amplamente divulgada nas redes sociais. JGF, inicialmente classificando os signatários como ‘grande parte da nossa elite’ (Sevinate Pinto deve ter corado de orgulho), acabando com um contundente “deixem os mais novos trabalhar”. Enquanto lia esta formosa carta, a janela de vídeo ao lado mostrava Eduardo Catroga a criticar os autores do Manifesto. Preciso de dizer mais?

A alternativa à renegociação da dívida é um quadro de austeridade permanente até 2035, com a dívida a ser paga em 75% até lá. “Porreiro, pá”. Fica ainda melhor quando esse quadro prevê um crescimento de pelo menos 3% por ano até lá. Não é preciso perceber de economia, basta perceber de História. Se até agora Portugal nunca conseguiu números tão bem-sucedidos, não os vai seguramente conseguir nos próximos 20 anos num contexto de perda de influência da UE e uma economia quase paralisada por cortes e nenhum investimento. O cenário da renegociação da dívida vai ser impossível, até ter de deixar de o ser.

 

 

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