A Europa, esse sítio magnífico // PS B vs PSD B

As Europeias são uma coisa fantástica. Quase invariavelmente, o processo de selecção para as listas de eurodeputados é baseado em duas premissas: 1. Despachar gente incómoda para os líderes dos partidos; 2. Uma operação de cosmética para políticos de segunda linha. 

Há, claro, várias honrosas de excepção: de Marisa Matias, João Ferreira, Rui Tavares, Patrão Neves e até Diogo Feio (2 dos 3, curiosamente, de saída – o último não faz parte da lista; o primeiro corre o risco bem real de não ser eleito pelo Livre), ou até Carlos Coelho (o T-Rex dos eurodeputados portugueses, eleito desde 1999), há eurodeputados competentes. Mas a maioria dos eleitos pelos partidos portugueses para a Europa são gente que, ou não interessa cá ter por agora, ou não interessam a ninguém. 

Senão vejamos: os cabeças-de-lista dos dois principais partidos foram os candidatos derrotados nas últimas eleições para a liderança de cada partido. Se ao menos Paulo Rangel pode hoje afirmar que perdeu para o primeiro-ministro, Assis assume uma dupla derrota: não só perdeu uma eleição para a liderança do PS, como perdeu para António José Seguro. Francisco Assis perdeu para António José Seguro. O PS não pode esperar muito para estas eleições. 

Agora o conteúdo das listas: do PS ainda não se sabe – mas esperamos todos ex-ministros, ex-secretários de estado e gente do ‘núcleo duro’ socrático. Espero ardentemente o regresso de José Lello, Vitalino Canas e outras celebridades da equipa B.

Nas listas de PSD e CDS, Diogo Feio, talvez o melhor MEP que a direita portuguesa teve no último mandato (juntamente com Patrão Neves e o próprio Paulo Rangel, diga-se) sai. Nos Açores, Maria do Céu Patrão Neves também. Entram uns nomes de secretaria que nunca ninguém ouviu falar e, para número 2, o grande intelectual europeu Fernando Ruas. Finalmente Ruas vai poder por em prática tudo aquilo que pensa sobre a Europa – ou vamos nós descobrir que sobre ela pensa nada para além de fundos regionais.

O Livre foi aprovado ontem e é nele que deposito as minhas ténues esperanças, apesar de já ter perdido boa parte do ímpeto. O BE tem Marisa Matias como cabeça-de-lista e espero que seja eleita – o mesmo em relação a João Ferreira, do PCP. Mas de resto, ainda há pouco a escrever. Fico para ver como os plantéis secundários dos partidos jogam este ‘clássico’.

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O Manifesto

Os Manifestos sempre foram uma coisa de Esquerda. A Esquerda sempre gostou de manifestos: desde o Manifesto Comunista e de vários manifestos ocasionais ao longo da história contemporânea até aos inumeráveis (e, por vezes, inenarráveis) manifestos que atolharam a discussão pública com, muitas vezes, palavras ocas e inócuas, apontando em direcção nenhuma, os Manifestos foram sempre uma língua oficial mas raramente trouxe algo de novo recentemente.

Quando li que várias personalidades tinham assinado um manifesto a defender a renegociação da dívida, precipitei-me a concluir que isso significava um conjunto de celebridades de Esquerda que tinham juntado umas canetas – outra vez. Depois li a notícia e apercebi-me que o bom senso tinha deixado de ser extremista: de 2011 até esta parte, só o BE e o PCP tinham defendido a renegociação da dívida. Agora os extremistas eram outros: Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite, Sevinate Pinto e vários membros do PS: João Cravinho, por exemplo. Para além destes, assinam também o manifesto Carvalho da Silva, Francisco Louçã e outros nomes que não são exactamente surpreendentes.

Até há muito pouco tempo, este cenário era impronunciável à direita do BE e do PCP. E de repente, por um toque de varinha e de esferográfica, tornou-se praticamente consensual fora da esfera do governo.

Ontem, a novidade do manifesto atordoou a resposta, que hoje já não tardou: o punho de José Gomes Ferreira fez brotar uma ‘Carta a uma Geração Errada‘, entretanto amplamente divulgada nas redes sociais. JGF, inicialmente classificando os signatários como ‘grande parte da nossa elite’ (Sevinate Pinto deve ter corado de orgulho), acabando com um contundente “deixem os mais novos trabalhar”. Enquanto lia esta formosa carta, a janela de vídeo ao lado mostrava Eduardo Catroga a criticar os autores do Manifesto. Preciso de dizer mais?

A alternativa à renegociação da dívida é um quadro de austeridade permanente até 2035, com a dívida a ser paga em 75% até lá. “Porreiro, pá”. Fica ainda melhor quando esse quadro prevê um crescimento de pelo menos 3% por ano até lá. Não é preciso perceber de economia, basta perceber de História. Se até agora Portugal nunca conseguiu números tão bem-sucedidos, não os vai seguramente conseguir nos próximos 20 anos num contexto de perda de influência da UE e uma economia quase paralisada por cortes e nenhum investimento. O cenário da renegociação da dívida vai ser impossível, até ter de deixar de o ser.

 

 

Esquerdizofrenia

Há eleições à vista. Pouco interessa se são as Europeias, embora as Europeias, regra geral, pouco interessem. 

Há eleições à vista e, acto contínuo, (re)começa a ‘discussão’ sobre unidades à esquerda. Confesso que desta vez, tive alguma esperança genuína em todo o processo: ao contrário de anos anteriores, houve movimentações para além da retórica. Infelizmente, os resultados são tão ou mais desastrosos que anteriormente e sem qualquer perspectiva de melhoria à vista.

Desta vez, a eterna promessa da ‘ala esquerda do PS’ – qual maioria silenciosa de esquerda – capitalizar em nome próprio chegou a ver luz ao fundo do túnel: o Livre, de Rui Tavares, prometia ser o ponto de encontro de todos os desencantados à esquerda com o PS, fartos da rigidez do Bloco. A tudo isto, acrescentava uma refrescante nota europeia convicta. O Livre parecia ser a solução que faltava à esquerda. Para trás ficariam um Bloco cada vez mais estático e vazio, um PCP igual ao que sempre foi e um PS que, cada vez mais, não se sabe bem o que é.

Tragicamente, a moda dos manifestos virou movimentos e desatou tudo a criar ‘unidade à esquerda’. Na esquerda portuguesa, isso significa invariavelmente uma multiplicação de unidades. Começou com o Livre, depois surgiu um certo Movimento 3D e, subitamente, a esquerda estava invadida de boas intenções. 

A tragédia da esquerda portuguesa é exactamente essa: haverá de facto boas intenções. Mas entre comícios, movimentos, proto-partidos e todo esse folclore, a montanha só consegue partir ratos. A ‘unidade à esquerda’ é um fim aparentemente inatingível, como a sociedade sem classes o é para o comunismo. As boas intenções atropelam-se a destroem-se na ânsia de se materializarem. Qual sonho molhado de burocrata, criam-se movimentos, partidos, movimentos para juntar partidos, partidos para conciliar movimentos mais sabe-se lá o quê. Todos falam de unidade à esquerda e, sabe-se lá porquê, isso nunca aconteceu. O único projecto que mais perto chegou disso, o Bloco, estacionou numa posição cada vez mais dogmática e fechada, provocando a saída de todos os que não concordam com a linha do partido. 

Hoje, a esquerda não tem nada. Os partidos instalados estão esgotados, entalados entre o que são e o que pretendem ser. Dos seres políticos criados recentemente, o Livre, ainda um bebé na incubadora (obrigado, Santana), foi atropelado enquanto atravessava a passadeira entre projecto e partido instalado. O Movimento 3D, que nunca se soube bem o que era nem de quem era, apareceu e desapareceu com a fugacidade que a irrelevância tem. Perdeu-se tudo em questiúnculas e nenhum destes movimentos/partidos tem condições, muito menos fôlego, para se apresentar às Europeias em condições de garantir um resultado razoável. 

Talvez, muito simplesmente, seja uma questão de ego. A esquerda está cheia de rebeldes sem causa e generais sem tropas e destes muito poucos estão dispostos a abandonar o status que têm. Entre opinion-makers, jornalistas, deputados e outras celebridades canhotas, há um enorme grupo de proto-generais, mas nenhum soldado.

Começou a época de caça à RTP

É oficial. Todos os anos há pelo menos uma, e o ministro Poiares Maduro decidiu declarar aberta a época de caça à RTP. Desta vez – aliás um pouco à semelhança de sempre – o alvo foi a RTP 2.

Parece que a estação “não tem coerência e identidade própria”. Desde 2002 que em todos os governos (Durão, Passos I e Passos II – este governo já foi virado do avesso vezes o suficiente para contar como mais um) PSD a RTP é ameaçada. Metaforizando este episódio para um recreio de uma escola primária, o PSD é o matulão do recreio que vai roubar o lanche do puto de quem ninguém parece gostar, a RTP. 

Este assédio constante à RTP tem de facto contornos de bullying: todas as reformas, ou ameaças de reforma (ou o que quer que isto se chame) são sempre acompanhadas de uma retórica agressiva. Todos os ministros que ‘tutelaram’ as mudanças na RTP arrogaram-se sempre no direito de comentar livremente aquilo que lhes vai na alma sobre a RTP. Qual saco de porrada tolerado por Portugal inteiro, a RTP é o único escape de ministros a quem normalmente o mais pequeno deslize “politicamente incorrecto” (esta expressão merecia um post só para si, mas fica para outra altura) pode ser o suficiente para ser atirado para a valeta. Comentar o estado da RTP é como para qualquer outro português comentar o futebol do Benfica. Comentar o estado da RTP, para um político no activo, é uma espécie de estágio para se tornar “comentador político” no futuro.

Não defendo nem deixo de defender que a RTP não precise de reforma. O meu problema com este assédio à RTP prende-se mais com a forma que o conteúdo. Declarações como estas, a juntar a tantas outras, não servem para mais nada que não produzir soundbytes estéreis e inúteis e avisar que abriu a época de caça, para já apenas ao nível da retórica, à RTP.

Que raio, o Estado devia tratar melhor aquilo que (pelo menos ainda) é dele.

Bonjour, Sócrates

Confesso que queria ter escrito este post há mais tempo, ainda quando foi anunciado o espaço televisivo de “comentário político” que Sócrates terá. No entanto, senti-me atropelado por uma chuva de reacções que, embora previsíveis pelo conteúdo, não deixaram de me surpreender pela forma – petições?

A chuva de reacções foi, de facto avassaladora – prova do poder que Sócrates tem na política portuguesa e que nunca deixou de ter. Toda a gente disparou para todas as direcções: quem não gostava e não gosta de Sócrates, pronunciou-se contra a decisão da RTP. Quem é apologista do ex-primeiro-ministro, pronunciou-se a for. A maioria, contudo, decidiu ultrapassar a decisão e dedicar-se à análise da decisão. O anúncio deste espaço de “comentário” foi lido de todas as maneiras possíveis: tanto seria uma jogada de Relvas para dominar o PS, como uma jogada da RTP como “vingança” pelo projecto de privatização da estação; tanto beneficiaria o PS, que teria no ex-PM socialista um aliado no ataque ao Governo; como beneficiaria o Executivo de Passos Coelho por anular a liderança já-mais-que-anémica de Seguro. Alguns comentadores (os “comentadores políticos”, a nova estirpe da nossa praça tão atacada em relação a Sócrates, tão esquecida em relação aos demais) até apontaram este regresso como uma preparação de uma candidatura presidencial. O regresso de Sócrates tanto significava uma coisa, quanto outra.

E o frenesi manteve-se até à hora da entrevista. Qual episódio final de telenovela, o país parou para ver o seu anti-herói. E aí, Sócrates apareceu, igual a si mesmo. Um pouco enferrujado e com algumas expressões – ou deslizes – novos. “Epá, ó Vítor”, embora seja o herdeiro natural do “Porreiro, pá”, foi uma novidade numa entrevista. Mas de resto, a entrevista podia ter sido retirada da RTP Memória: vimos um Sócrates combativo, impertinente com os jornalistas, sentindo-se sempre acossado pelas perguntas e repetidamente a impor o seu ritmo, desmontando questões, virando do contrário argumentos. Pelo meio, no entanto, referiu vários pontos verdadeiros: a ideia de ir “para além da troika” é deste governo, não foi herdada pelo anterior. E refugiou-se, como não podia deixar de ser, no chumbo o PEC IV, a válvula de escape perfeita.

Depois da entrevista, as intenções de Sócrates são razoavelmente claras e só vêm transformar o futurismo de tantos analistas que escreveram em cima do joelho em comédia: Sócrates não vem fazer política activa. Este comentador político que nos chega de França vem apenas defender o seu legado. Mais nada. Isto significa que quaisquer estragos que faça, e seguramente fará muitos, não poderão ser classificados senão como danos colaterais. Sócrates deixou apenas passar o mínimo “período de nojo” possível, porque sabe que tem muito da sua imagem para limpar e quanto mais uma nódoa não é limpa, mais difícil é a sua remoção. De resto, não se importa com mais nada. Se para isso tiver de atropelar Seguro e a sua liderança fraca para depurar a sua imagem, pois paciência. Se conseguir acertar certeiramente neste Governo, e vai precisar de o fazer várias vezes (sobretudo agora que o novo discurso-tipo do Governo, já que tudo falhou, é voltar a transferir culpas do estado actual para a governação anterior), tanto melhor. Mas nenhum desses dois alvos é o principal. Sócrates não quer ser lembrado como aquele que afundou Portugal. Esse é o único objectivo que o traz de volta. Quaisquer episódios que surjam a jusante dos seus comentários são externalidades, independentemente de serem positivas ou negativas. Isto engloba tudo, desde a queda de Seguro, de Passos Coelho ou de uma pole position numa candidatura a Belém (afirmar que este é o objectivo desta rentrée é o sonho molhado de outros “comentadores políticos” como Marques Mendes ou Marcelo – esses sim com pretensões mais imediatas).

Uma última nota sobre este espaço cada vez mais consagrado a “comentadores políticos”, saltando por cima sobre o quão errado políticos assumirem a função de comentar aquilo que os seus pares fazem, deturpando a objectivo primordial do próprio comentário político: mal ou bem, são estas figuras os “senadores” da nossa praça. Com Soares a contar os seus últimos dias e sem ninguém do seu estatuto – nem lá perto – os “patriarcas” da política portuguesa são estes “comentadores políticos”: Marques Mendes, Marcelo, Morais Sarmento, Sócrates e, quando voltar, Durão Barroso. É profundamente revoltante um grupo tão medíocre ser a espuma da classe política. E é ainda mais revoltante, ou simplesmente triste, constatar que os líderes políticos no activo – refiro-me a Seguro, Passos Coelho ou o monstro-de-duas-cabeças do BE, já que PCP e CDS têm líderes cristalizados, por razões diferentes – são ainda mais pobres. Há um constante abaixamento do olhar em cada geração de políticos portugueses. Do ponto de vista das capacidades políticas, Passos é pior que Sócrates, que é quase pior que Durão Barroso, que é pior que Guterres, que é pior que Cavaco, …por aí adiante. Mas isso fica para outra altura.

O que agora interessa é: o monstro está de volta. Não percam os próximos episódios, porque nós…também não.

Livro do Mês – Agosto

 

André de Guillaume – Como Dominar o Mundo

Dizer que o poder foi o grande móbil das movimentações políticas ao longo dos séculos não é mais que um lugar comum. A História, desde (antes d’)o tempo dos Romanos até aos nossos dias, roda à volta de quem tem o poder: quem o perde, quem o adquire e as consequências que essas mudanças trazem. Ora, a História e a Política são primas irmãs, na medida de que a acção da História gira em grande parte em torno de Política. E a História Política é pouco mais do que uma sequência de quem teve ou perdeu o poder. Logo, quem se interessa por Política, interessar-se-á obviamente por essas alterações de poder. Por poder, basicamente.

Certo? Se acha que sim – e se gosta de Política e de poder – então este livro é o ideal para si. André de Guillaume escreveu “Como Dominar o Mundo” – e o mais engraçado é que é exactamente sobre isso. Escrito num tom espirituoso, cheio de humor mas sem ser cómico, como quem conta uma piada sem se rir, o André de Guillaume propõe um manual com os ways and means necessários para se dominar o seu país. Recorrendo a diversos exemplos históricos, aprendendo com cada tirano desde a Antiguidade até Kadhafi[1], passando por Napoleão e todo o bom tirano do século XX, o autor oferece a quem estiver interessado um guia de instruções detalhado, preciso e hilariante.

A encerrar a silly season, só um livro com este espírito poderia ser adequado para esta altura. Leiam e divirtam-se. Ouvimos dizer que Alberto João Jardim está a trabalhar numa edição comentada


[1] Sim, Kadhafi acabou por ser brutalmente assassinado mas esteve no poder 42 confortáveis anos.

Figurantes e figurões a fazer figurinhas

A silly season é um fenómeno global. Chega o Verão e o bom senso dos discursos públicos e políticos estabelece uma relação de proporcionalidade inversa com o aumento das temperaturas. Quem fala nesta época tem uma tendência inexplicável para dar origem a notícias por vezes transformadas em escândalos, que surgem e se esquecem à mesma velocidade que um incêndio espontâneo numa savana. A silly season é, no fim de contas, o summer affair da comunicação social.

Cá em Portugal, no entanto, a silly season é uma condição da nossa democracia. Um primeiro-ministro-tornado-Presidente-da-República a esventrar furiosamente um pedaço de bolo em directo para a televisão nacional seria um exemplo máximo, até extremado, de um comportamento típico de silly season. Cá, acontece no Natal. Atitudes destas são a regra e não a excepção. E esse estado-de-pateguice constante inclui todos os elementos da nossa querida polis: os espectadores-eleitores – os figurantes – e os protagonistas – os figurões – num palco decorado em tons de ridículo. Fazem ambos figurinhas. Os figurantes por serem exactamente isso – figurantes. Não existe opinião pública em Portugal ou, quando há, fica cautelosamente preservada no ambiente acolhedor de um táxi. As excepções a isto emergem quando a ‘sociedade civil’, essa grandiosa mão invisível (paradoxo? Nem por isso), decide parir Compromissos Portugais e outros que tais, que concluem brilhantemente que o caminho para este sítio beira-mar plantado é por os custos de trabalho ao nível do Uganda. Ou abaixo, que pelos vistos o Uganda anda melhor que a Europa.

Figurantes assim têm os figurões que merecem. Ora, Portugal adora figurões. Um líder político está automaticamente condenado ao fracasso se não parecer que traz consigo a chave para todos os problemas, mantendo uma expressão de quem encerra em si todos os temores do mundo, carregando aos ombros o país. Não há lugar à humildade na política portuguesa. As ‘elites políticas’ tomam nota: dentro das jotas transbordam amostras de figurões de peito inchado que se movem num turbilhão constante de jantares, conferências e jantares-conferências onde se discute o sexo dos anjos. Após anos a limar o seu discurso até qualquer vestígio de substância dar lugar a uma retórica inflamada absolutamente estéril, estes quadros estão prontos para dar o salto e tomar conta dos destinos do país. Num exercício que serve de atestado intelectual, escrevem um livro que será pronta – e felizmente – esquecido. Depois, correm o Norte a beijos e o Sul a visitas a cafés, com comícios nos dois lados (e nas ilhas, palcos secundários e com buracos de figurões boémios). Chegam ao governo, metem um infeliz qualquer a penar como ministro das Finanças e instalam-se em cargos governamentais de topo. Pelo meio, ainda quase que nem eram “senhores doutores”, e neste país a política é só deles. O problema fica resolvido com uma licenciatura – com equivalências, qual é o espanto? Tantas Universidades de Verão tinham de servir de alguma coisa – numa Universidade de terceira linha. Senhores nunca serão, mas agora as cartas já lhes chegam a casa com um ‘Dr.’ antes do nome.

Chegou o tempo deles. Que tristes figurinhas.