Portugal não é a Grécia, Itália não é a Espanha, e o apocalipse não vai ser na Babilónia

Se profetas tivesse havido com capacidade de encaixe para prever a situação em que a Europa se encontra, eles teriam morrido prematuramente. A morte natural (que, num profeta, pode envolver ser queimado vivo, como sabemos) teria dado lugar a uma morte por profunda exaustão.

Há alguns anos atrás, não tão poucos que não mereçam esta introdução snob nem tantos que me façam parecer jurássica, quando entrei para a faculdade, na primeiríssima aula que tivemos – de apresentação, leia-se – o professor anfitrião questionou: “e se, de repente, toda a gente decidisse tirar dinheiro dos bancos?””.

Claro que era uma pergunta retórica. A Argentina, em 2001, já tinha demonstrado a resposta. Mas a aula não era sobre bancos. A aula não era sobre nada em específico, era o começar a pensar numa base politológica. O sistema baseia-se na confiança, era a lição. Qualquer sistema só funciona porque as partes o aceitam, o integram, deixam entrar, sair e operam modificações sobre o fluxo que liga o sistema.

Sem confiança o sistema retrai-se, os seus canais de comunicação começam a assemelhar-se a artérias com colesterol. A rotura da confiança é uma trombose.

A Grécia apresenta-se ao mundo com levantamentos bancários diários na ordem dos 100-500M€/dia, (a jornalisticamente-assim-chamada) Bruxelas prepara medidas que impeçam o levantamento massivo de depósitos bancários e Itália viu um bloqueamento generalizado dos ATM no dia 31 de Maio.

Se tudo isto não bastasse como quadro sintomático de uma trombose, o povo Grego deu em comprar enlatados e produtos alimentares não-perecíveis (massa e arroz, por ex.) como se não houvesse amanhã, dizem os seus supermercados.

A Grécia está a preparar-se e não é para o apocalipse zombie. É para o apocalipse do mundo que um dia Fukuyama arriscou dizer que poderia ser o fim da Historia.

Deixou de ser dramático dizer que o mundo, como o conhecemos, acabou. Deixou de o ser pela quantidade de vezes que o dissemos nos últimos 10 anos – culpa do 11 de Setembro. De facto, o que podemos chegar à conclusão, é que o século XXI e o terceiro milénio nos trouxeram uma incapacidade de previsão a médio-prazo assustadora. Os livros de Introdução às Ciências Sociais do Professor Barata serviram a Academia durante quase quarenta anos, e por aqui se vê como o mundo mudou – nenhum livro de Ciências Sociais dura, hoje, dois dias sem o paradigma se alterar. Ou então é um livro sobre a alteração dos paradigmas, e mesmo esses já se tornaram extemporâneos, por não dizerem nada de novo, como é o caso deste texto.

Se depois do Terror chega a época do Termidor, como será a época do Termidor? A época do Terror, essa, é mais previsível – já não há muitas coisas más que se possam inventar depois de desastres nucleares e cyberwars. Para já, claro. Os limites flexíveis da imaginação humana são um mistério digno da barreira de Planck. Os limites da imaginação humana são como o horizonte quando para ele caminhamos. Continua a haver um limite, mas quanto mais nos aproximamos dele mais ele se afasta, alargando, ainda mais, o nosso espectro de acção no campo da imaginação e da invenção.

Mas a Grécia está a contar com o que sabe. E o que a Grécia-que-não-é-Irlanda sabe é aquilo que Portugal-que-não-é-a-Grécia devia saber – vem aí fome. E sabemos que quando escrevemos “vem aí fome” é porque já a vimos chegar. Mas quem tem tempo de escrever “vem aí fome”, especialmente na web, e usa este tempo verbal indicando futuro, é porque a fome ainda não lhe chegou mas viu chegar a outras/os antes dela/e.

A Grécia sabe que o país está a saque e quer tornar o saque mais difícil, personalizando-o, reclamando seu o que o ser humano mais diz seu – o dinheiro.

A Grécia não vai cair. Nem vai cair Portugal, nem a Irlanda, nem a Espanha, nem a Itália. Num train of love que de amor nada tem, a Europa equilibra-se como se um círculo humano aos saltos fosse. A Europa equilibra-se em desequilíbrio, não deixando nenhum país cair… sozinho. Só porque não pode.

Caiu, caiu Babilónia. Sucumbiu à luxúria e aos vícios. Cai, cai a Europa. Cai, cai a democracia liberal. Cai, cai o fim da História. Possamos nós deixar para a História as histórias que sobre esta Babilónia em queda escrevemos!

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Filme do mês – Made in Dagenham (2010)

Malgrado o título em Português por este filme recebido – um cliché e nada apelativo “Igualdade de Sexos“, este filme merece o destaque pelas mesmas três razões de que é feita a trindade do destaque: história, representação, guião.

Em vésperas de Dia Europeu para a Igualdade Salarial – 2 de Março – Made in Dagenham é escolhido como filme do mês pela história que nos traz – a história dos meandros das primeiras lutas equal pay, numa fábrica da Ford, em 1968.

Sally Hawkins presenteia-nos com uma representação cativante de uma mulher trabalhadora, Rita O’Grady, que conquista a confiança das suas pares e do seu representante sindical mais directo, o que a conduz, a ela mesma, progressivamente, às lides sindicais.

Enfrentando um patronato desprevenido, um sindicato fechado sobre a sua estrutura patriarcal e um ambiente socio-político hostil, a mobilização das trabalhadoras da Ford em Dagenham valeu-lhes, mais tarde, um avanço considerável na melhoria das suas condições de trabalho e numa redução da desigualdade salarial que se lhes assistia.

Representação e história faladas, evitando o spoiler que seria, certamente, penoso para  o/a leitor/a menos curioso/a, merece-nos atenção o guião, pela sua escrita cuidada, com a inclusão de deliciosos detalhes que para quem, como nós, se deleita com o sistema político, surgem como um forte bónus na visualização deste filme. São exemplos destes detalhes a caracterização dos sindicatos como organizações altamente permeáveis à partidarização – facto que é sobejamente conhecido – e os seus líderes caciques e desligados dos interesses para os quais quem os elegeu se organizou em sindicato. A resistência misógina das estruturas sindicais é, também, no filme registada, o que me mereceu redobrada atenção depois de, no Verão passado, ter lido o livro Feminismo e Marxismo. As vicissitudes da organização familiar em torno do “pai de família” são também evidenciadas, o que dá para questionar até a leviandade da semântica utilizada, como se pode ver no clipe abaixo (rights, not privileges).

E aqui fica o trailer:


Este filme recebe, claramente um 9 em 10. Despachem-se a comprá-lo ou alugá-lo antes do início do Black March ou optem por outras vias que ficarão subentendidas… mas vejam :).

Occupy megabytes – they will last as long US satellites are safe

Quoting Rodrigo, these are uncertain times for living, although these are certainly the best times for leaving an epic legacy to further generations.

Firstly because they are exciting: a million changes a day won’t keep the doctors, the crisis and the IMF away, but at least one cannot be bored. Secondly, the International Health Organization has warned that the philosopher’s stone will not be found, since this organization anticipates the life expectancy to decrease for the first time in 200 years. Meaning: we will have a shorter but a more exciting life than our parents had. I couldn’t imagine anything more exciting than Woodstock but stock market will certainly turn me on. One day.

The question is: shorter lives, yes, but only due to diabetes? Or are there any other reasons?

Greeks have reasons to think so – so did the South Koreans, where the suicide rate boosted in the 90s, in a phenomenon that was called “IMF suicides”. In Greece, the suicide rate is now four times higher than it was before the crisis and the IMF intervention. Ireland’ suicide rates were up 13%.  It could be the IMF curse but arts and literature may benefit with this deadly plague.

Humanity has always relied on our capacity of singing or telling stories which reproduce and build History. Unemployment and misery are surely good motivations to embrace a relationship with alcohol, la bohéme, cheap rents in mansards and tumblr logged in cyber bars. Apart from the tumblr (too new to give it some real credit), the rest is well-known as the habitat of great books, great ideas, great conspiracy theories, failed and not-so-failed revolutions, riots and world-wide changes. Meaning, we have a lot to write about and some of us will even be remembered for their words. And if you write on the web, feel free to occupy megabytes. “Times that are a changing”!

“Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won’t come again
And don’t speak too soon
For the wheel’s still in spin
And there’s no tellin’ who
That it’s namin’
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin’”

Bob Dylan
(only the verses. The rest is mine, in case you have found my words so good that you didn’t pick the difference).