Livro e Filme do Mês – Abril

Já vem a fechar o mês, bem sei. Mas antes tarde que nunca.

Abril é um mês demasiado marcado pela Revolução de dia 25 para evitar o tema. Aliás, sendo uma data tão bela, porquê evitá-la? Assim, tanto o Livro como o Filme do mês de Abril pertencem, bem, a Abril. Não há acordo ortográfico que tire a maiúscula inicial a Abril, pelo menos não aqui.

O livro que vos propomos tem o sempre-elucidativo título 25 de Abril: Mitos de uma Revolução. Literatura sobre o 25 de Abril existe em número suficientemente grande para não saber a que escolher. No fim, escolhemos este livro de Rezola.

A História do 25 de Abril e do PREC está longe de ser, porque recente, consensual. Maria Inácia Rezola recolhe, por isso, um conjunto variadíssimo de depoimentos, não só de vários dos militares portugueses que participaram no golpe e no processo revolucionário que se lhe seguiu, mas também de numerosos estudiosos nacionais e estrangeiros deste período – as 75 páginas de notas e bibliografia são disso prova.

O trabalho de Rezola prende-se sobretudo em recolher vários depoimentos sobre os mesmos acontecimentos e confrontá-los, por vezes inclinando-se mais para um dos depoimentos em confronto. Esta é, talvez, uma das principais marcas do livro – a diversidade (e quantidade) de autores citados, o que permite compreender melhor cada um dos eventos que marcou o processo revolucionário.

Outro ponto positivo deste livro é a perfeita noção das dinâmicas revolucionarias e as alterações na correlação de forças depois de certos acontecimentos: através da leitura do livro de Inácia Rezola, torna-se perfeitamente nítido que a margem de manobra que é dada a Spínola se vai encurtando cada vez mais, também em parte devido a acção das forças de esquerda (sobretudo à esquerda do PS, com destaque para o PCP), mas em grande parte devido a uma forte inabilidade política do General e, não menos importante, a um choque ideológico que se torna cada vez mais evidente com a Comissão Coordenadora do MFA.

Enfim, não gosto de apresentar mais que um teaser dos trabalhos que aqui vão sendo divulgados. Por isso, aqui termino. Leiam o livro, vejam o livro, vale a pena.

Filme do Mês: Idiocracy (2005)

 

 

Idiocracy coloca-se num plano ingrato: por um lado, é uma crítica à sociedade americana e americana-tipo, básica e cada vez mais primária, simplificando-se em cada uma das suas metamorfoses até chegar a um ponto em que o glossário de uma cultura inteira é um conjunto de onomatopeias pouco divergentes de um conjunto indiscriminado de arrotos.

Por outro lado, e isto é o aspecto mais curioso do filme, Idiocracy é uma comédia americana. O filme aspira a fazer rir (do mesmo modo desbragado que implicitamente critica) o objecto pelo qual aspira a fazer rir. É esta lógica auto-fágica foi nos leva a nomear Idiocracy o Filme do Mês de Março do Instituto Público.

Filme do mês – Made in Dagenham (2010)

Malgrado o título em Português por este filme recebido – um cliché e nada apelativo “Igualdade de Sexos“, este filme merece o destaque pelas mesmas três razões de que é feita a trindade do destaque: história, representação, guião.

Em vésperas de Dia Europeu para a Igualdade Salarial – 2 de Março – Made in Dagenham é escolhido como filme do mês pela história que nos traz – a história dos meandros das primeiras lutas equal pay, numa fábrica da Ford, em 1968.

Sally Hawkins presenteia-nos com uma representação cativante de uma mulher trabalhadora, Rita O’Grady, que conquista a confiança das suas pares e do seu representante sindical mais directo, o que a conduz, a ela mesma, progressivamente, às lides sindicais.

Enfrentando um patronato desprevenido, um sindicato fechado sobre a sua estrutura patriarcal e um ambiente socio-político hostil, a mobilização das trabalhadoras da Ford em Dagenham valeu-lhes, mais tarde, um avanço considerável na melhoria das suas condições de trabalho e numa redução da desigualdade salarial que se lhes assistia.

Representação e história faladas, evitando o spoiler que seria, certamente, penoso para  o/a leitor/a menos curioso/a, merece-nos atenção o guião, pela sua escrita cuidada, com a inclusão de deliciosos detalhes que para quem, como nós, se deleita com o sistema político, surgem como um forte bónus na visualização deste filme. São exemplos destes detalhes a caracterização dos sindicatos como organizações altamente permeáveis à partidarização – facto que é sobejamente conhecido – e os seus líderes caciques e desligados dos interesses para os quais quem os elegeu se organizou em sindicato. A resistência misógina das estruturas sindicais é, também, no filme registada, o que me mereceu redobrada atenção depois de, no Verão passado, ter lido o livro Feminismo e Marxismo. As vicissitudes da organização familiar em torno do “pai de família” são também evidenciadas, o que dá para questionar até a leviandade da semântica utilizada, como se pode ver no clipe abaixo (rights, not privileges).

E aqui fica o trailer:


Este filme recebe, claramente um 9 em 10. Despachem-se a comprá-lo ou alugá-lo antes do início do Black March ou optem por outras vias que ficarão subentendidas… mas vejam :).