Livro do Mês – Maio

1968 foi um pai com muitos filhos: foi o ano do assassinato de Martin Luther King e Bobby Kennedy, mas também o ano da Primavera de Praga, do movimento pacifista contra a guerra do Vietname, entre tantos outros. No entanto, há um particularmente que tem na sua verve o espírito de enfant térrible: chama-se Maio.

Ora, em Maio, o Livro do Mês do Instituto Público teria de ser sobre 1968 e teria de remontar ao espírito desse ano. Assim, o vosso Professor Marcelo cá do sítio não se lembrou de melhor opção que 1968: The year that rocked the World, de Mark Kurlansky.

Kurlansky retrata brilhantemente todos os acontecimentos que marcaram 1968: é factual, sem perder originalidade; é histórico, sem perder nunca uma faísca de interesse. É certo que o ano de 1968 é particularmente empolgante, mas a escrita de Kurlansky está ao nível dos acontecimentos descritos no livro. Sem se abster de colocar um comentário pessoal aqui e ali, Kurlansky procura sempre não descurar a parte factual e não apresentar a história num plano inclinado à esquerda ou à direita.

No caso do Maio de 1968, sem deixar de referir que de Gaulle tinha em França um poder quase absoluto e que nunca entendeu o movimento estudantil, também não coloca Cohn-Bendit num pedestal e refere que aquele que é visto como tendo sido uma das caras do Maio de 68 não tinha uma ideologia definida. Acima de tudo, Kurlansky consegue a proeza de sem fazer o livro soar esquerdista, retratar que o maior feito de Meio foi “colocar as pessoas a conversar” na sociedade amorfa que era a francesa do pré-1968, referindo todas as dinâmicas desse mês do ano que mudou a França e o Mundo, até o deixarem ser proibido proibir.

Leiam.

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Livro e Filme do Mês – Abril

Já vem a fechar o mês, bem sei. Mas antes tarde que nunca.

Abril é um mês demasiado marcado pela Revolução de dia 25 para evitar o tema. Aliás, sendo uma data tão bela, porquê evitá-la? Assim, tanto o Livro como o Filme do mês de Abril pertencem, bem, a Abril. Não há acordo ortográfico que tire a maiúscula inicial a Abril, pelo menos não aqui.

O livro que vos propomos tem o sempre-elucidativo título 25 de Abril: Mitos de uma Revolução. Literatura sobre o 25 de Abril existe em número suficientemente grande para não saber a que escolher. No fim, escolhemos este livro de Rezola.

A História do 25 de Abril e do PREC está longe de ser, porque recente, consensual. Maria Inácia Rezola recolhe, por isso, um conjunto variadíssimo de depoimentos, não só de vários dos militares portugueses que participaram no golpe e no processo revolucionário que se lhe seguiu, mas também de numerosos estudiosos nacionais e estrangeiros deste período – as 75 páginas de notas e bibliografia são disso prova.

O trabalho de Rezola prende-se sobretudo em recolher vários depoimentos sobre os mesmos acontecimentos e confrontá-los, por vezes inclinando-se mais para um dos depoimentos em confronto. Esta é, talvez, uma das principais marcas do livro – a diversidade (e quantidade) de autores citados, o que permite compreender melhor cada um dos eventos que marcou o processo revolucionário.

Outro ponto positivo deste livro é a perfeita noção das dinâmicas revolucionarias e as alterações na correlação de forças depois de certos acontecimentos: através da leitura do livro de Inácia Rezola, torna-se perfeitamente nítido que a margem de manobra que é dada a Spínola se vai encurtando cada vez mais, também em parte devido a acção das forças de esquerda (sobretudo à esquerda do PS, com destaque para o PCP), mas em grande parte devido a uma forte inabilidade política do General e, não menos importante, a um choque ideológico que se torna cada vez mais evidente com a Comissão Coordenadora do MFA.

Enfim, não gosto de apresentar mais que um teaser dos trabalhos que aqui vão sendo divulgados. Por isso, aqui termino. Leiam o livro, vejam o livro, vale a pena.

Livro do Mês – Março

A direita e a esquerda são como uma religião, até certo ponto. Se tentarmos todos um exercício atroz de neutralidade, conseguiremos encontrar pontos válidos em ambos os lados do espectro político, que aliás já se diz extinto por tantos.

Como religião que são, no entanto, nenhuma análise da esquerda e da direita que queira ser mais que uma lista de eventos históricos pode aspirar a ser completamente imparcial. Nem o é este livro de Nick Cohen, What’s Left?, sobre o hemisfério político que explora penso-não-ser-necessário-explicar-qual.

Ainda continuando a metáfora das religiões, considere-se o livro de Cohen uma análise de um agnóstico filho de pais católicos sobre o catolicismo. Ora, debruçando-se esta obra sobre a esquerda, esta metáfora poderá ser algo polémica. Eu justifico-me:

As críticas mais difíceis de refutar às religiões vêm da parte daqueles que, não pertencendo a nenhuma igreja, as conhecem. Pegando de novo na religião (no caso, a católica): ]s críticas vindas de dentro da Igreja, basta remetê-las para uma passagem da Bíblia ou para uma obra do Papa – para os que já lá estão dentro, basta convencê-los de que precisam apenas de instruir-se mais para ver as suas questões resolvidas. Para quem está fora, bem, está fora. Não vêem a luz, ponto final. Tenha Deus piedade deles.

Já no que toca a quem está com um pé dentro e outro fora da Igreja, a questão é mais complicada: parte-se do princípio, correcto ou não, que essa pessoa conhecerá os meandros das questões que critica. Além disso, estando com um pé-dentro-outro-fora, não convém dar uma explicação tão agressiva que as afaste definitivamente para ‘o outro lado’.

Se a metáfora já deixou de fazer sentido para o leitor – se é que alguma vez o fez – troquemos ‘Nick Cohen’ por ‘filho de pais católicos’, ‘pais de esquerda’ por ‘pais católicos’ e ‘esquerda’ como substituindo ‘igreja’.

Sem se declarar de esquerda ou de direita, Cohen afasta-se dessa dicotomia com o propósito de evitar que futuras respostas à sua obra possam ter isso em consideração. Ao mesmo tempo, e devido à mesma razão, toca em, senão todos, muitos dos pontos fracos da esquerda. Citando a contracapa do livro, “the Left now defends fascists and champions a cripping cultural relativism that preaches ‘tolerance’ at the expense of justice, truth and freedom”. A capa do livro é um activista de fato, com um arafat enrolado à cabeça, uma granada na mão esquerda e um símbolo da paz estampado num cartaz na mão direita. A simbologia não podia ser melhor: este é, precisamente, o principal alvo do livro.

So much for Noam Chomsky. 

Livro do Mês – Fevereiro

Bem-vindos a um livro delicioso.

A Sombra do que Fomos acaba por ser um equivalente ao filme Adeus Lenine – traduções feitas entre texto e tela, talvez até melhor.

O livro explora brilhantemente a utopia perdida nas décadas de 60 e 70. A narrativa desenrola-se à volta de um grupo de antigos revolucionários chilenos que, passadas algumas décadas, decide voltar a encontrar-se para uma tentativa arrojada de um golpe. Numa história deliciosa com o traço único de Sepúlveda, o leitor é defrontado com um homicídio involuntário (com um gira-discos caído da janela de um prédio, na sequência de uma discussão conjugal), que muda radicalmente o curso dos eventos, não fosse o morto o cabecilha da operação-que-não-o-chegou-a-ser. Pelo meio, há um reviver das histórias de cada um, a revisitação inevitável de Allende e Pinochet e um retrato único e delicioso do que constituiu a esquerda revolucionária nessas décadas que constituíram, no final de contas, o seu auge, e que hoje permanecem como fantasmas-mito do ideário da extrema-esquerda europeia e terceiro-mundista.

Leiam.

Livro do Mês – Janeiro

Bem-vindos à nossa especial rubrica…bem, o título fala por si. Resta saber se isto vai durar todos os meses.

Para este mês, aqui o vosso Professor Marcelo escolheu dois pequenos grandes livros.

    

São dois livros pequenos, mas essa é das poucas pontes passíveis de se estabelecer entre eles.

O primeiro, Indignai-Vos!, é da autoria de Stéphane Hessel, com 94 anos, foi editado em Dezembro de 2010, sendo publicado em Portugal em Março de 2011 pela Objectiva, tendo obtido grande sucesso em França e em grande parte da Europa. Conheceu, entretanto, uma “sequela”, entitulada “Empenhai-Vos!”.

Hessel representa o legado de consciência da esquerda continental desde o pós-guerra e é uma arma contra o status quo actual que apresenta a perda do nível de vida no Ocidente como algo inevitável e que agora só nos pode esperar uma lenta e dolorosa “adaptação” a uma vida pior. Numa citação lapidar do que representa o espírito inconformista do livro, Hessel afirma: “Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais [as conquistas sociais da Resistência Francesa do Pós-Guerra]. Mas como é que possível que actualmente [o Estado] não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada?

Outro ponto de Indignação, para Hessel, constitui a situação do conflito Israelo-Palestiniano. O francês é particularmente crítico dos abusos israelitas sobre as populações da Faixa de Gaza, que o autor intitula de “prisão a céu aberto”.

Ora, o conflito Israelo-Palestiniano é precisamente o tema central do segundo livro que vos propomos. Da autoria de Amos Oz, um escritor israelita membro do movimento “Paz Agora” e defende uma solução de dois estados.  O livro, resultado de três conferências proferidas no início de 2002 e publicado originalmente no mesmo ano, só chegou a Portugal em 2007, pelas Edições ASA.

O testemunho de Amos Oz é profundamente realista, sóbrio. Um excerto do início da terceira conferência publicada no livro é disso mesmo ilustrativo: “‘Faz a paz, não o amor’, é uma máxima cunhada por mim (…) estou contra confundir amor e paz, o que é sempre uma confusão sentimental”. Não há feitiços no pacifismo de Oz. O autor está consciente, e refere isso várias vezes, que uma solução de dois estados é contrário àquilo que tanto Israel e a Palestina realmente quereriam – aquele território apenas cada um deles (“Não acredito numa lua-de-mel repentina entre Israel e a Palestina. Não sou um sentimental. (…) Em caso de esperar alguma coisa, seria antes um divórcio limpo e justo entre Israel e a Palestina. E os divórcios nunca são felizes, por muito justos que sejam. (…) Especialmente este (…) porque as duas partes em litígio ficarão para sempre no mesmo apartamento“).

Até porque, para Oz, ambos os povos têm uma História igualmente legítima que lhes permite reclamar em pé de igualdade um com o outro aquele território – e essa é a verdadeira tragédia.

No retrato do israelita, ninguém fica bem na fotografia: nem israelitas, nem palestinianos – e muito menos europeus ou americanos, que rejeitaram os dois povos no século XX e têm uma significativa parte da culpa no processo. E, no entanto, esse assumir colectivo de culpa é o primeiro passo para uma solução viável. Não a idealizada por cada uma das partes. Mas o compromisso, de que Oz se mostra tão adepto, é inevitável e condição sine qua non para a Paz, inalcançável desde sempre.