Esquerdizofrenia

Há eleições à vista. Pouco interessa se são as Europeias, embora as Europeias, regra geral, pouco interessem. 

Há eleições à vista e, acto contínuo, (re)começa a ‘discussão’ sobre unidades à esquerda. Confesso que desta vez, tive alguma esperança genuína em todo o processo: ao contrário de anos anteriores, houve movimentações para além da retórica. Infelizmente, os resultados são tão ou mais desastrosos que anteriormente e sem qualquer perspectiva de melhoria à vista.

Desta vez, a eterna promessa da ‘ala esquerda do PS’ – qual maioria silenciosa de esquerda – capitalizar em nome próprio chegou a ver luz ao fundo do túnel: o Livre, de Rui Tavares, prometia ser o ponto de encontro de todos os desencantados à esquerda com o PS, fartos da rigidez do Bloco. A tudo isto, acrescentava uma refrescante nota europeia convicta. O Livre parecia ser a solução que faltava à esquerda. Para trás ficariam um Bloco cada vez mais estático e vazio, um PCP igual ao que sempre foi e um PS que, cada vez mais, não se sabe bem o que é.

Tragicamente, a moda dos manifestos virou movimentos e desatou tudo a criar ‘unidade à esquerda’. Na esquerda portuguesa, isso significa invariavelmente uma multiplicação de unidades. Começou com o Livre, depois surgiu um certo Movimento 3D e, subitamente, a esquerda estava invadida de boas intenções. 

A tragédia da esquerda portuguesa é exactamente essa: haverá de facto boas intenções. Mas entre comícios, movimentos, proto-partidos e todo esse folclore, a montanha só consegue partir ratos. A ‘unidade à esquerda’ é um fim aparentemente inatingível, como a sociedade sem classes o é para o comunismo. As boas intenções atropelam-se a destroem-se na ânsia de se materializarem. Qual sonho molhado de burocrata, criam-se movimentos, partidos, movimentos para juntar partidos, partidos para conciliar movimentos mais sabe-se lá o quê. Todos falam de unidade à esquerda e, sabe-se lá porquê, isso nunca aconteceu. O único projecto que mais perto chegou disso, o Bloco, estacionou numa posição cada vez mais dogmática e fechada, provocando a saída de todos os que não concordam com a linha do partido. 

Hoje, a esquerda não tem nada. Os partidos instalados estão esgotados, entalados entre o que são e o que pretendem ser. Dos seres políticos criados recentemente, o Livre, ainda um bebé na incubadora (obrigado, Santana), foi atropelado enquanto atravessava a passadeira entre projecto e partido instalado. O Movimento 3D, que nunca se soube bem o que era nem de quem era, apareceu e desapareceu com a fugacidade que a irrelevância tem. Perdeu-se tudo em questiúnculas e nenhum destes movimentos/partidos tem condições, muito menos fôlego, para se apresentar às Europeias em condições de garantir um resultado razoável. 

Talvez, muito simplesmente, seja uma questão de ego. A esquerda está cheia de rebeldes sem causa e generais sem tropas e destes muito poucos estão dispostos a abandonar o status que têm. Entre opinion-makers, jornalistas, deputados e outras celebridades canhotas, há um enorme grupo de proto-generais, mas nenhum soldado.